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luto masculino

há coisas que os homens não aprendem a dizer.

e outras que ninguém nunca perguntou.

o luto dos homens nem sempre aparece.

não porque ele não exista.
mas porque, muitas vezes,
ele não encontra espaço.

desde cedo,
muitos homens aprendem a seguir.

a continuar funcionando.
a não parar.
a dar conta.

quando a perda chega,
isso não muda.

no dia em que voltei para casa,
depois do enterro,
eu quis chorar.

mas não tive tempo.

tinha banho.
tinha jantar.
tinha duas crianças deitadas na minha cama.

no dia seguinte,
antes do sol nascer,
eu estava na cozinha,
parado,
tentando lembrar
onde ficava a mamadeira.

não era só a falta dela.

era tudo.

a casa.
a rotina.
as decisões.

e, de alguma forma,
eu entendi
que agora eu precisava dar conta.

foi assim que comecei a viver o luto:

funcionando.

por muito tempo,
eu não consegui pedir ajuda.

eu precisava.
mas não conseguia.

então eu segui.

trabalhando.
cuidando.
resolvendo.

como muitos homens fazem.

por dentro,
o que existia era outra coisa.

cansaço.
silêncio.
um tipo de solidão
que não se explica.

eu procurei outros homens.

pais solos.
viúvos.
qualquer um que tivesse vivido algo parecido.

eu queria me reconhecer.

queria saber se era possível atravessar aquilo.

mas, na maior parte do tempo,
o que eu encontrei
foi silêncio.

um grande silêncio.

não é que os homens não sintam.

é que, muitas vezes,
eles não aprenderam a sentir
com alguém.

não aprenderam a dizer.

não aprenderam a pedir.

então o luto aparece de outro jeito.

no afastamento.
na irritação.
no excesso de controle.

ou na tentativa de continuar
como se nada tivesse mudado.

mas mudou.

falar sobre luto masculino
não é sobre explicar o que os homens sentem.

é sobre abrir espaço.

para que um homem possa,
talvez pela primeira vez,
parar
e dizer:

eu não estou dando conta.

e, ainda assim,
seguir.

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