Grupo de Homens do Instituto Ana Michelle e Casa Lavanda

grupo de homens

muitos homens não sofrem menos.
muitas vezes, sofrem mais sozinhos.

o grupo de homens da casa lavanda / instituto ana michelle é uma iniciativa de acolhimento e reflexão voltada a homens atravessados pela experiência de uma doença grave — seja como pacientes, familiares, cuidadores ou enlutados.

o projeto nasce dentro da missão da casa lavanda, comunidade criada para promover acolhimento, conexão, informação e pertencimento a pessoas impactadas por doenças graves e seus familiares.

a proposta é criar um espaço seguro para uma experiência muitas vezes pouco nomeada:
a forma como os homens vivem o cuidado, o adoecimento, a perda, o medo, a sobrecarga, a impotência, o silêncio e o luto.

contexto

atravessar a jornada de uma doença grave é extremamente difícil.

a casa lavanda existe porque viver esses desafios em comunidade pode amenizar os sofrimentos que envolvem uma enfermidade que coloca a vida em risco.

nesse território — entre doença grave, cuidado, vínculos familiares, finitude, direitos, pertencimento e comunidade — o grupo de homens se insere.

ele cria um espaço específico para olhar para uma pergunta:
como os homens atravessam o cuidado, o adoecimento e o luto?

por que um grupo para homens

a experiência da doença grave e do luto costuma desorganizar lugares tradicionalmente atribuídos aos homens: o lugar de controle, de provedor, de quem resolve, protege, sustenta e “dá conta”.

muitos homens chegam ao adoecimento, ao cuidado ou ao luto sem repertório emocional para nomear o que vivem.

essa dificuldade também aparece no luto masculino, quando muitos homens seguem funcionando, cuidando e resolvendo, mesmo sem encontrar espaço para dizer que não estão dando conta.

foram ensinados, ao longo da vida, a silenciar fragilidades, evitar a vulnerabilidade, controlar emoções, proteger os outros do próprio sofrimento e responder à dor com isolamento, racionalização ou tentativa de solução imediata.

essa formação também se relaciona com a caixa dos homens, conceito que ajuda a compreender como muitos homens aprendem a associar masculinidade a força, silêncio, controle e autossuficiência.

diante de uma doença grave, esses aprendizados entram em crise.

o homem que acreditava precisar resolver tudo se depara com o que não pode ser resolvido.
o homem que aprendeu a ser forte se vê cansado.
o homem que cuida percebe que também precisa de cuidado.

por isso, o grupo oferece um espaço onde homens possam falar sem precisar performar força, escutar sem precisar consertar a dor do outro e reconhecer que suas experiências, embora singulares, também são atravessadas por construções coletivas de masculinidade.

para quem é

o grupo é voltado prioritariamente a homens que fazem parte da comunidade da casa lavanda / instituto ana michelle.

podem participar homens que estejam vivendo ou tenham vivido experiências como:

pacientes com doenças graves;
familiares de pessoas adoecidas;
cuidadores;
homens enlutados;
homens atravessados pela sobrecarga do cuidado;
homens que encontram dificuldade para falar sobre dor, medo, limite ou perda.

quando há vagas disponíveis, a participação pode ser aberta também a homens que não estejam previamente inscritos na casa lavanda, mas que vivam experiências relacionadas ao cuidado, ao adoecimento grave ou ao luto.

a entrada no grupo acontece mediante inscrição, disponibilidade de vagas e alinhamento com a proposta do ciclo.

como funciona

o grupo de homens acontece em ciclos de encontros, com começo, meio e fechamento.

cada ciclo é conduzido como uma jornada de acolhimento reflexivo. a proposta não é oferecer aulas, respostas prontas ou aconselhamento.

o centro do trabalho é a experiência vivida.

primeiro, o homem narra.
depois, escuta outros homens.
então, reconhece experiências compartilhadas.
por fim, começa a refletir sobre como sua forma de ser homem atravessa sua dor, seu cuidado, seus vínculos e seus limites.

ao longo dos encontros, podem surgir temas como cuidado, perda, medo, culpa, corpo, filhos, conjugalidade, sexualidade, fé, trabalho, solidão, cansaço, limite e pedido de ajuda.

a masculinidade não entra como acusação, correção ou modelo ideal.
ela entra como pergunta.

o que aprendemos sobre ser homens — e como isso aparece quando estamos diante do cuidado, da doença, da perda e da finitude?

metodologia

o grupo pode ser definido como uma metodologia de acolhimento reflexivo para homens em contextos de cuidado, adoecimento e luto.

ele dialoga com metodologias de grupos reflexivos de homens, especialmente pela valorização da troca entre pares, da escuta, da responsabilização e da reflexão coletiva.

essa prática também dialoga com o campo do trabalho com homens, especialmente quando a escuta entre pares ajuda a nomear padrões de silêncio, cuidado, responsabilidade e pedido de ajuda.

mas sua especificidade está no ponto de partida: a experiência de cuidado, doença grave e luto.

aqui, a masculinidade não é o ponto de partida abstrato.
ela é uma chave de leitura que emerge das histórias.

o grupo não substitui psicoterapia, acompanhamento médico, assistência social ou suporte especializado.

ele oferece outro lugar: pertencimento, escuta e elaboração coletiva.

o que o projeto pretende

o grupo pretende criar um espaço contínuo de encontro entre homens que vivem experiências de cuidado, doença grave e luto.

a proposta favorece:

a elaboração da própria história;
a construção de vínculo e pertencimento;
a ampliação da capacidade de escuta;
o reconhecimento das emoções;
a reflexão sobre masculinidade, cuidado e vulnerabilidade;
a redução do isolamento;
o reconhecimento de limites e sobrecargas;
a possibilidade de pedir ajuda;
a transformação da experiência individual em experiência compartilhada.

a força do grupo está em transformar histórias vividas de forma isolada em experiência compartilhada, pertencimento e cuidado possível.

princípios de condução

escuta antes da resposta
a proposta não é resolver a dor do outro, mas sustentar presença diante dela.

narrativa antes do tema
os temas não são impostos de fora para dentro. eles emergem das histórias dos participantes.

acolhimento com responsabilidade
o grupo acolhe a dor, mas também convida cada homem a observar como aprendeu a se relacionar, silenciar, controlar, cuidar ou se afastar.

vulnerabilidade como prática coletiva
a vulnerabilidade não é tratada como fraqueza, mas como possibilidade de vínculo.

masculinidade como pergunta, não como acusação
o grupo não parte da ideia de corrigir homens, mas de abrir espaço para que eles possam perceber os modos como foram formados e como isso aparece diante da doença, do cuidado e da perda.

casa lavanda

a casa lavanda é uma rede social que abriga uma comunidade virtual de pacientes com doenças graves e seus familiares.

seu propósito é promover acolhimento, conexão e informação a todas as pessoas que podem se beneficiar dos cuidados paliativos.

carinhosamente chamada de casinha por seus moradores virtuais, a casa lavanda reúne salas de conversa, conteúdos, encontros, materiais de apoio, eventos e espaços de pertencimento para pessoas impactadas por doenças graves.

o grupo de homens se insere nesse território, oferecendo um espaço específico para que homens possam falar, escutar e se reconhecer.

minha atuação

minha atuação no grupo de homens se insere em uma pesquisa prática mais ampla sobre masculinidade, paternidade, cuidado e luto.

a partir da minha própria experiência como pai, viúvo, escritor e facilitador, venho construindo espaços onde homens possam falar de si sem precisar performar força, resposta ou controle.

esse trabalho se conecta a outras frentes que desenvolvo, como o projeto meninos, voltado à formação emocional de meninos, e às reflexões sobre a caixa dos homens.

no contexto da casa lavanda / instituto ana michelle, essa escuta se encontra com homens atravessados pela doença grave, pela responsabilidade do cuidado, pela perda, pela finitude e pela necessidade de pertencer a uma comunidade possível.

começar pela própria história

muitos homens chegam à experiência da doença grave tentando ser fortes.

tentam proteger alguém.
tentam resolver o que não pode ser resolvido.
tentam não preocupar ninguém.
tentam seguir, mesmo quando algo dentro deles também precisa de cuidado.

o grupo de homens da casa lavanda existe para abrir um espaço de escuta entre homens atravessados pelo cuidado, pelo adoecimento e pelo luto.

um espaço para falar daquilo que muitas vezes fica em silêncio.
um espaço para escutar outras histórias.
um espaço para reconhecer cansaços, limites, medos, vínculos e transformações.

não é preciso chegar sabendo o que dizer.

a proposta é começar pela própria história.