conto · luto, cuidado e paternidade

a lista

No começo, ele achou que a lista ajudaria.

Prendeu uma folha na geladeira com um ímã antigo e passou a escrever tudo ali: leite, pão, manteiga, fruta, remédio de febre, elástico de cabelo, caderno sem pauta, cereal do menino, iogurte da menina. No alto, colocava o dia da semana, como se isso organizasse alguma coisa.

Antes, quando tinha dúvida, mandava mensagem para ela no meio do mercado.

É esse mesmo?
Qual marca?
Com ou sem açúcar?
A Maria ainda gosta desse?
O Francisco pode comer isso?

Ela respondia rápido. Às vezes com uma foto. Às vezes com uma correção seca. Às vezes com uma figurinha qualquer.

Depois, a conversa continuou existindo no celular.

Ele só não tinha mais para onde mandar.

Na primeira vez em que foi sozinho ao supermercado depois de tudo, ficou parado diante da prateleira de massas. Havia muitas opções para uma coisa tão simples. Espaguete, penne, fusilli, parafuso, integral, com ovos, sem ovos, pacote econômico, marca conhecida, marca em promoção.

Pegou uma. Devolveu. Pegou outra.

Olhou para o lado e perguntou, baixo:

— Qual você prefere?

Uma mulher que passava com o carrinho virou o rosto. Ele fingiu procurar algo no bolso, tirou o celular e abriu a lista.

Massa.

Estava escrito apenas massa.

Não dizia qual.

Colocou um pacote qualquer no carrinho e seguiu.

Na fila do caixa, conferiu tudo de novo. Não por necessidade. Por medo. A moça passava os produtos rápido demais, e ele tentava acompanhar: separar congelados, proteger os ovos, pegar o cartão, digitar a senha, guardar a nota, responder ao menino que ligava perguntando se podia comer bolacha antes do jantar.

— Só uma — ele disse.

Do outro lado, o menino comemorou como se tivesse vencido uma negociação importante.

Quando chegou em casa, havia uma mochila no meio da sala, dois copos na pia, uma toalha molhada sobre a cama e o livro da menina aberto no sofá. Ele deixou as sacolas sobre a mesa e, por um segundo, esperou ouvir:

— Guardou o leite?

Não ouviu.

Guardou o leite.

Depois os frios. Depois as frutas. Depois a manteiga. Ao colocar o pão sobre a tábua, notou que tinha comprado seis, como sempre. A casa agora tinha três pessoas, mas ele ainda comprava pão como quem comprava para quatro.

Pensou em congelar.

Não congelou.

Naquela noite, a menina pediu para prender o cabelo.

— Do jeito que a mamãe fazia.

Ele ficou com o elástico entre os dedos. O cabelo dela era fino, escorregava. Tentou juntar tudo em uma mão só, mas algumas mechas escapavam. A menina olhava para frente, paciente, como se soubesse que aquele aprendizado não era apenas sobre cabelo.

— Tá puxando — ela disse.

— Desculpa.

Ele afrouxou.

— Assim?

— Um pouco mais alto.

O menino apareceu na porta do banheiro com uma peça de dinossauro na mão.

— Pai, olha. Esse aqui é o carnívoro.

— Já vou ver.

— Você sempre fala já vou ver.

Ele prendeu o elástico na terceira volta. Ficou torto.

A menina se olhou no espelho. Não disse que estava ruim. Também não disse que estava bom.

— Pode ser assim.

Ele soube que não podia ser assim, mas aceitou.

Depois que os dois dormiram, ficou vendo tutoriais de penteado no celular. Homens de mãos grandes fazendo tranças em meninas pequenas. Mães ensinando penteados fáceis para a escola. Vídeos rápidos, vozes alegres, músicas irritantes ao fundo.

Pausava, voltava, tentava entender o movimento dos dedos.

Separar em três partes. Cruzar a direita sobre o meio. Depois a esquerda.

Parecia simples quando outra pessoa fazia.

Na manhã seguinte, tentou. A menina ficou sentada no chão do banheiro, entre as pernas dele. O menino escovava os dentes com pressa e espuma no queixo. O relógio corria. A trança saiu frouxa, mas saiu.

No caminho da escola, a menina passou a mão no cabelo.

— Hoje ficou melhor.

Ele segurou o volante com mais força.

— É?

— É.

O menino perguntou se no jantar podia ter panqueca. Ele disse que sim antes de lembrar que não sabia fazer panqueca.

Durante o dia, procurou receita. Farinha, leite, ovo, sal. Tudo parecia fácil quando escrito em tópicos. À noite, queimou a primeira, rasgou a segunda, deixou a terceira grossa demais. A quarta quase serviu. O menino comeu sorrindo. A menina disse que faltava alguma coisa, mas comeu também.

Ele comeu em pé, direto da frigideira, enquanto lavava o que dava tempo de lavar.

Havia noites em que a casa parecia um corpo cansado. A pia era o estômago cheio. O quarto, o peito apertado. O corredor, a garganta. A mesa, uma pergunta. Ele passava de um cômodo a outro tentando impedir que tudo parasse.

Não chorava muito.

Essa era uma das coisas que o incomodava.

As pessoas imaginavam que o luto tinha uma aparência: um homem sentado no escuro, um copo na mão, a barba por fazer, uma janela, uma chuva qualquer. O luto dele tinha despertador, lancheira, reunião de escola, boleto, febre de madrugada, criança chamando do banheiro e mensagem da professora dizendo que o menino estava mais quieto.

Tinha também a menina perguntando se ele morreria um dia.

Ele respondia o que conseguia. Às vezes, mentia pouco. Às vezes, dizia a verdade de um jeito menor, para caber na idade deles.

Com os outros adultos era mais difícil.

— Você é muito forte — diziam.

Ele agradecia.

Forte era uma palavra que encerrava a conversa. Ninguém perguntava mais nada depois dela. Forte significava que ele estava aguentando. Forte significava que não precisavam chegar tão perto. Forte significava que a dor dele podia permanecer organizada, educada, quase invisível.

Ele começou a desconfiar da palavra.

No trabalho, fazia o que precisava. Respondia mensagens. Entrava em reuniões. Falava sobre prazos, processos, entregas, indicadores. Às vezes, enquanto alguém compartilhava a tela, ele pensava se tinha colocado fruta na mochila.

Em uma terça-feira, esqueceu.

A professora mandou mensagem:

“Oi, tudo bem? Hoje o Francisco veio sem lanche. Não tem problema, conseguimos resolver aqui.”

Ele leu no meio de uma reunião.

“Conseguimos resolver aqui.”

A frase o desmontou.

Não porque fosse grave. Porque alguém tinha resolvido uma coisa que era dele.

Pediu licença, desligou a câmera e foi até a cozinha. Apoiou as mãos na pia. A louça do café ainda estava ali: uma caneca com resto de leite, uma faca com manteiga, migalhas.

Ficou olhando para aquilo como se a pia pudesse responder alguma coisa.

Não respondeu.

Naquela noite, depois de colocar as crianças na cama, sentou no chão da sala. A casa estava quase escura. Só a luz da cozinha permanecia acesa.

Pegou o celular e abriu a conversa antiga. Não escreveu. Desceu a tela.

Fotos. Áudios. Recados. Listas.

“Compra pão.”

“Não esquece o remédio.”

“Maria tem apresentação amanhã.”

“Francisco está sem meia.”

“Te amo.”

Tocou em um áudio sem querer.

A voz dela preencheu a sala.

Era uma mensagem simples, antiga, esquecida entre outras.

“Rafa, quando passar na farmácia, vê se tem aquela mamadeira com bico menor. Acho que ele vai aceitar melhor.”

Ele parou o áudio antes do fim.

Não por não querer ouvir.

Por querer ouvir demais.

No sábado seguinte, levou as crianças à padaria. Escolheram pão, bolo de cenoura e suco. Sentaram numa mesa perto da janela. O menino derrubou açúcar. A menina desenhava no guardanapo.

Na mesa ao lado, um homem mais velho tomava café sozinho. Tinha mãos grandes, unhas curtas, camisa azul clara. Observou o menino tentando equilibrar o copo cheio demais.

— Vai transbordar — disse, sorrindo.

O menino olhou assustado.

O homem puxou um guardanapo e colocou perto.

— Pronto. Agora, se cair, já tem onde cair.

A frase ficou no ar de um jeito estranho.

O pai agradeceu.

O homem assentiu.

Quando as crianças foram escolher outro doce no balcão, o homem olhou para ele.

— São seus?

— São.

— Bonitos.

— Obrigado.

O homem mexeu o café.

— A minha morreu faz oito anos.

Ele não entendeu de imediato.

— Sua esposa?

O homem confirmou com a cabeça.

Não havia drama na forma como disse. Havia apenas uma porta aberta.

— A minha também — ele respondeu.

Foi a primeira vez que disse aquilo para um homem desconhecido.

A minha também.

Como se estivessem falando de uma cidade onde os dois já tinham morado.

O homem olhou para o balcão, onde as crianças discutiam entre sonho e pão de queijo.

— No começo, eu achava que tinha que dar conta de tudo.

Ele quase riu.

— E não tinha?

— Tinha. Mas não sozinho.

O café esfriava entre os dois.

— Demorei para entender.

As crianças voltaram antes que a conversa pudesse seguir. O menino escolheu pão de queijo. A menina disse que queria só um pedaço do bolo do pai.

O homem se levantou, pagou a conta e, antes de ir embora, colocou a mão no ombro dele por um segundo.

Não apertou forte.

Não disse “força”.

Disse apenas:

— Vai deixando cair onde puder cair.

Depois saiu.

Ele ficou olhando a porta da padaria fechar.

Naquela semana, aceitou a mensagem de uma amiga que havia se oferecido para buscar as crianças na escola. Aceitou também o convite da mãe de um colega para o Francisco passar duas horas lá depois da aula. Pediu para a menina ensinar de novo como queria o cabelo.

Na quinta, foi a uma roda de homens.

Chegou cedo demais. Havia cadeiras em círculo, uma garrafa de café sobre a mesa e uma folha com uma pergunta impressa:

“O que você aprendeu a esconder?”

Pensou em ir embora.

Sentou.

Os outros homens chegaram aos poucos. Cumprimentos rápidos. Abraços duros. Piadas pequenas para aliviar o desconforto.

Quando a conversa começou, ele escutou. Um falou do pai. Outro, do casamento. Outro, do medo de perder o emprego. Outro disse que nunca tinha aprendido a pedir desculpas.

Ele olhava para as próprias mãos.

Quando chegou sua vez, poderia ter passado.

Quase passou.

Mas pensou na menina sentada entre suas pernas, esperando a trança. Pensou no menino sem lanche. Pensou na mamadeira com bico menor. Pensou na palavra forte.

— Eu não sei pedir ajuda — disse.

A sala ficou quieta.

Ninguém tentou consertar.

Ele continuou:

— Acho que eu nem sei perceber antes de estar no limite.

Um dos homens perguntou:

— E como você percebe?

Ele respirou.

— Pela pia.

Alguns sorriram, não de deboche, mas de reconhecimento.

— Quando a pia está cheia, eu já passei do ponto.

Não disse muito mais.

Não precisava.

Na volta para casa, comprou pão. Pediu três. Parou diante do balcão, contou de novo e pediu mais um.

Ao chegar, a menina estava lendo no sofá. O menino construía alguma coisa no tapete.

— Trouxe pão — ele disse.

— Com manteiga? — o menino perguntou.

— Com manteiga.

Preparou o café como quem prepara uma pequena cerimônia. Cortou o pão ao meio. A manteiga derreteu depressa.

A menina reclamou que a trança tinha soltado na escola.

— Amanhã eu tento melhor.

— Eu posso fazer sozinha.

Ele assentiu.

— Pode.

Ela mordeu o pão.

— Mas você pode tentar também.

O menino apareceu com um dinossauro na mão e perguntou se carnívoros comiam pão.

— Esse aqui come — respondeu.

O menino rugiu.

A casa ficou cheia por alguns segundos.

Depois, aos poucos, cada um voltou para alguma coisa. A menina para o livro. O menino para o tapete. Ele para a pia.

Lavou os copos. Passou água na faca. Guardou o prato.

Não estava tudo resolvido.

A lista ainda existia.

Na geladeira, presa pelo mesmo ímã, havia outra folha.

Leite.
Pão.
Manteiga.
Fruta.
Lanche.
Elástico.
Pedir ajuda.

Ele olhou para o último item.

Não riscou.

Ainda não.

Dobrou o pano de prato, apagou a luz da cozinha e deixou a casa respirar um pouco no escuro.

Antes de dormir, passou pelo quarto das crianças. A menina dormia de lado, o cabelo espalhado no travesseiro. O menino tinha chutado o cobertor. Ele cobriu o menino primeiro. Depois ajeitou o travesseiro da menina, com cuidado para não acordá-la.

No corredor, parou.

Por um instante, quase chamou por ela.

Quase perguntou se estava fazendo certo.

A casa permaneceu em silêncio.

Ele apoiou a mão na parede.

Não veio resposta.

Mesmo assim, ficou ali mais um pouco.

Depois entrou no quarto, sentou na beira da cama e tirou os sapatos devagar.

Um pé.

Depois o outro.

Como quem aprende, aos poucos, que continuar também pode ser uma forma de cair sem quebrar tudo.

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