duas horas às terças
nas últimas quatro terças-feiras, tenho me encontrado com homens para falar sobre aquilo que ninguém gostaria de precisar viver.
cada um chegou trazendo alguma coisa que a vida havia colocado em suas mãos. um diagnóstico, uma ausência, alguém de quem cuidar. às vezes, tudo isso junto. não sei exatamente o que cada um esperava encontrar. talvez alguém que compreendesse. talvez um lugar onde pudesse falar sem precisar explicar tanto. ou apenas duas horas em que não fosse necessário responder que estava tudo bem.
eu também cheguei com minhas perguntas. conheço algumas dessas experiências pelo lado de dentro. já estive ao lado de uma cama de hospital sem saber o que fazer. já quis proteger alguém de uma coisa sobre a qual não tinha nenhum controle. já precisei continuar cuidando da vida quando uma parte dela havia terminado.
mas conhecer a dor não significa saber o que fazer com ela. muito menos saber o que dizer diante da dor de outro homem.
muitos de nós aprendemos a demonstrar cuidado resolvendo problemas. trabalhando, protegendo, encontrando uma saída. mas há coisas para as quais nosso esforço não basta. nem sempre conseguimos aliviar a dor de quem amamos. não podemos garantir que uma pessoa continue viva.
tenho pensado nisso enquanto escuto. no que acontece quando alguém acostumado a cuidar passa a precisar de ajuda. quando já não consegue trabalhar como antes. quando a pessoa com quem dividia a vida não está mais ali.
num dos encontros, falamos sobre a armadura que aprendemos a vestir. aquela que esconde o medo, a tristeza, a insegurança. reconheço a vontade de parecer capaz mesmo quando não sei o que fazer.
na roda, alguns falam com facilidade. outros precisam de tempo. há silêncios que duram um pouco mais. às vezes, alguém começa contando uma história cotidiana e chega a uma coisa que ainda custa dizer. ninguém precisa ir além do que consegue.
tenho percebido o quanto é difícil permanecer diante de uma dor sem tentar consertá-la. escutar sem corrigir. sem procurar imediatamente uma solução. sem transformar a experiência de alguém numa oportunidade para contar a minha.
conhecer uma parte daquela dor pode me aproximar. também pode me apressar. lembro do que vivi, do que me ajudou, e preciso prestar atenção para não deixar minha história ocupar o lugar da que estou ouvindo.
no último encontro, conversamos sobre a morte.
falamos da morte que entra em casa, que muda os horários, que deixa objetos sem dono. da morte que ainda não chegou, mas já ocupa os pensamentos de quem recebeu um diagnóstico. da possibilidade de um mundo no qual talvez não estejamos, ou no qual alguém que amamos já não estará.
penso no pouco tempo desde que começamos. há algumas semanas, ainda não tínhamos ouvido aquelas histórias. agora conseguimos ficar juntos numa conversa como essa. o medo continua ali. durante aquelas duas horas, porém, podemos falar dele.
ao escrever sobre o encontro, penso também na minha própria ausência. no que significa continuar vivendo sem deixar alguém para trás. há dias em que ela parece caber na rotina. em outros, alguma coisa pequena devolve à falta o tamanho que tinha no começo. um cheiro, uma música, uma pergunta que eu gostaria de fazer.
essa é a parte da história que levo comigo quando entro na roda. os outros chegam com as suas. algumas coisas se aproximam. outras eu não conheço, e preciso ouvir.
ainda estamos no começo. não sei o que esses encontros vão transformar na vida de cada um, nem quais conversas continuarão quando o grupo terminar. ninguém precisa sair de cada encontro com uma resposta. ninguém tem a obrigação de encontrar sentido naquilo que sofreu.
às vezes, um homem consegue dizer que está com medo. outro fala da dificuldade de continuar. há momentos em que não sei o que dizer. permaneço ali, escutando.
não precisamos conhecer o caminho para oferecer companhia.
— R.
a pia tá limpa, por hoje.
Crônica escrita a partir dos encontros do Grupo de Homens do Instituto Ana Michelle e da Casa Lavanda. Publicada originalmente no dodepois em 20 de outubro de 2026.