Não basta não agredir: o papel dos homens diante da violência contra as mulheres
Quando a conversa sobre violência contra as mulheres chega até nós, homens, uma resposta aparece com frequência: “Eu jamais faria uma coisa dessas.”
Entendo o que essa frase tenta estabelecer. Existe uma tentativa de marcar distância entre nós e o homem que agride, ameaça, assedia ou abusa de uma mulher. Eu não sou esse cara. Você talvez também não seja.
Mas tenho pensado que existe um problema quando nossa responsabilidade termina aí.
A violência contra as mulheres não produz consequências apenas no momento em que uma agressão acontece. Ela também produz medo. E esse medo passa a organizar comportamentos, escolhas e relações muito além daquela situação específica.
Uma mulher é agredida porque decidiu terminar um relacionamento. Outra porque disse não. Outra porque discordou do companheiro. Outra porque voltou tarde para casa. Outra porque escolheu uma roupa que ele não queria que ela usasse.
Essas histórias não permanecem restritas às mulheres que sofreram aquelas violências. Elas circulam. Tornam-se notícias, relatos de amigas, experiências familiares, histórias conhecidas. Aos poucos, constroem uma espécie de conhecimento compartilhado sobre aquilo que pode acontecer.
Não é necessário que todas as mulheres tenham sido agredidas para que muitas aprendam que a agressão é uma possibilidade.
E é aqui que a participação dos homens nessa conversa precisa ir além da afirmação de que não somos violentos.
A violência também existe antes da agressão
Paul Kivel, em Trabalho dos Homens, propõe compreender a violência masculina dentro de relações de poder e controle. A agressão física é uma das expressões mais evidentes desse processo, mas existem comportamentos anteriores capazes de produzir intimidação e medo.
Um homem pode nunca ter batido em sua companheira e ainda assim socar uma parede durante uma discussão. Pode quebrar objetos. Gritar para encerrar uma conversa. Usar seu tamanho físico para intimidar. Bloquear uma porta. Dirigir agressivamente durante uma briga. Aproximar o corpo de maneira ameaçadora. Transformar um “não” em uma afronta pessoal.
Kivel chama atenção justamente para essas situações em que força física, ameaça ou capacidade de causar dano se transformam em instrumentos de poder.
Isso amplia bastante a pergunta que precisamos fazer a nós mesmos.
Em vez de apenas perguntar “Eu bateria em uma mulher?”, talvez seja necessário perguntar: o que acontece com a outra pessoa quando eu estou frustrado, contrariado, com ciúme ou com raiva?
Ela continua se sentindo segura para discordar de mim?
Porque segurança não é apenas aquilo que dizemos sobre nós mesmos. Ela também é resultado da maneira como nos comportamos.
Posso repetir muitas vezes que jamais faria mal a alguém. Mas as pessoas não têm acesso às minhas intenções. Elas têm acesso às minhas atitudes.
Se afirmo ser um homem seguro, mas bato portas quando sou contrariado, existe uma mensagem sendo transmitida antes da minha promessa. Se digo respeitar minha companheira, mas preciso levantar a voz para vencer uma discussão, também estou comunicando alguma coisa. Se afirmo respeitar mulheres, mas ridicularizo um amigo que foi rejeitado ou relativizo uma situação de assédio, minhas atitudes dizem mais do que aquilo que declaro acreditar.
A segurança vai sendo construída na repetição: na maneira como ouvimos um não, como atravessamos uma discordância, como lidamos com nossa raiva e como reagimos quando não conseguimos aquilo que queremos.
O medo também distribui poder
Existe uma parte ainda mais desconfortável dessa conversa.
Homens que nunca agrediram uma mulher também podem se beneficiar de uma sociedade em que a violência masculina existe.
Isso não significa dizer que todos os homens desejam essa violência, que todos exercem o mesmo poder ou que homens não sejam também atravessados por outras formas de violência e desigualdade. Raça, classe, sexualidade, deficiência e tantos outros marcadores produzem experiências masculinas profundamente diferentes.
Mas existe uma dimensão de gênero que precisamos conseguir enxergar.
Quando uma mulher precisa calcular o que diz, aonde vai, como volta para casa, como recusa uma aproximação ou como comunica o fim de um relacionamento porque existe a possibilidade de uma reação violenta, sua liberdade está sendo restringida.
Para muitos homens, esses cálculos simplesmente não organizam a vida da mesma maneira.
É possível passar anos sem perceber isso justamente porque não precisamos perceber.
A violência praticada por alguns homens produz uma espécie de sombra sobre as relações entre homens e mulheres. Nós podemos nunca ter produzido diretamente essa violência e ainda assim viver em um mundo organizado parcialmente por ela.
Reconhecer isso não significa assumir culpa por crimes que não cometemos. Significa reconhecer que responsabilidade e culpa são coisas diferentes.
A responsabilidade começa quando percebemos que fazemos parte de uma estrutura social e perguntamos o que podemos fazer dentro dela.
A edição brasileira de Trabalho dos Homens começa justamente por essa provocação: boas intenções não são suficientes quando continuamos nos beneficiando de relações desiguais; é necessário disposição para reconhecer privilégios e assumir responsabilidade.
Há também uma responsabilidade entre homens
Durante muito tempo, a violência contra as mulheres foi tratada como um assunto das mulheres.
Mulheres organizaram movimentos, redes de proteção, políticas públicas, serviços de acolhimento e toda uma produção de conhecimento que tornou possível compreender a dimensão do problema.
Nós, homens, chegamos tarde a essa conversa.
E ainda chegamos pouco.
A publicação Como conversar com homens sobre violência contra meninas e mulheres, produzida pelo Instituto Avon e pelo Instituto PDH, parte justamente da percepção de que o enfrentamento da violência exige envolver os homens. O material mostra também a importância das conversas entre homens: em pesquisa citada no guia, muitos dos homens que afirmaram ter abandonado atitudes violentas disseram ter sido influenciados por conversas pessoais, inclusive com outros homens próximos.
Isso importa porque nossa socialização também acontece entre nós.
Homens observam outros homens. Procuramos pertencimento. Aprendemos cedo quais comportamentos geram aprovação e quais podem nos colocar para fora do grupo.
Por isso, uma piada importa.
A maneira como reagimos quando um amigo controla a namorada importa.
O comentário sobre a mulher que rejeitou alguém importa.
O que fazemos quando presenciamos uma humilhação importa.
A forma como recebemos um relato de violência importa.
E o nosso silêncio também importa.
Não se trata de imaginar que todo homem deve se transformar em especialista ou fiscal dos outros. Trata-se de perceber que existe uma diferença enorme entre dizer “eu não faço isso” e construir ambientes em que outros homens saibam que determinados comportamentos não serão naturalizados.
Talvez uma das perguntas mais importantes seja justamente esta:
O que eu faço quando outro homem faz?
Isso não pode virar uma nova performance masculina
Existe outro risco nessa conversa: transformar a responsabilização em identidade.
O “homem consciente”.
O “homem desconstruído”.
O “aliado”.
Um homem que aprende algumas palavras, conhece determinados conceitos e passa a utilizar esse repertório como prova de que já chegou a algum lugar.
Nos grupos reflexivos de homens, essa ideia aparece de outra maneira: não existe um selo de qualidade de “homem desconstruído”. O trabalho de olhar para as relações de gênero não tem uma linha de chegada.
A responsabilidade, portanto, não está em convencer mulheres de que somos homens seguros. Nem em repetir que somos diferentes daqueles que cometem violência.
Está em sustentar um trabalho contínuo sobre nossas próprias relações.
Escutar quando somos questionados.
Perceber quando ultrapassamos limites.
Aprender outras maneiras de atravessar conflitos.
Interromper comportamentos de outros homens quando necessário.
Reparar quando erramos.
Procurar ajuda quando não conseguimos lidar sozinhos com raiva, ciúme, rejeição ou necessidade de controle.
E entender que apoiar o enfrentamento da violência contra as mulheres não significa ocupar o centro dessa luta.
Significa assumir nossa parte do trabalho.
Talvez “eu nunca bateria em uma mulher” seja pouco
Durante muito tempo, usamos o extremo como medida para avaliar nossa própria relação com a violência.
Você bate?
Você agride?
Você abusa?
São perguntas fundamentais. Mas talvez precisemos começar algumas etapas antes.
Como você reage quando escuta um não?
O que acontece quando alguém que você ama discorda de você?
Você precisa vencer uma discussão?
Como seu corpo reage quando você sente raiva?
Você utiliza medo ou intimidação para recuperar controle?
Uma mulher consegue contrariá-lo sem antes calcular qual será sua reação?
Os homens que convivem com você sabem que serão confrontados caso ultrapassem determinados limites?
As mulheres próximas a você precisam diminuir alguma parte delas para preservar seu conforto?
Não existe uma resposta simples para essas perguntas. E provavelmente todos nós encontraremos contradições quando começarmos a respondê-las com alguma seriedade.
Mas talvez seja justamente esse o trabalho.
Porque nossa responsabilidade diante da violência contra as mulheres não começa apenas quando alguém levanta a mão.
Começa antes.
Na maneira como aprendemos a exercer poder.
Na forma como atravessamos frustração e conflito.
No que fazemos com nossa força.
Naquilo que naturalizamos entre outros homens.
No nosso silêncio.
E no tipo de segurança que somos capazes de construir nas relações.
Não podemos apagar sozinhos a violência que tantos homens continuam produzindo.
Mas podemos decidir se nossas atitudes ajudam a ampliar ou a diminuir a sombra que essa violência projeta sobre a vida das mulheres.
E talvez seja por aí que a nossa responsabilidade começa.