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homens também precisam de novos roteiros

durante muito tempo, falar sobre igualdade de gênero significou, com razão, ampliar as possibilidades para mulheres e meninas. foi preciso abrir portas, disputar lugares, questionar violências, enfrentar desigualdades históricas e criar novos repertórios para que meninas pudessem imaginar futuros mais livres.

esse movimento segue urgente.

mas, nos últimos anos, trabalhando com homens, grupos, empresas e escolas, uma pergunta tem me acompanhado: enquanto oferecemos novos roteiros para meninas, que roteiros continuamos entregando aos meninos?

em muitas conversas sobre masculinidades, cuidado e presença, percebo uma ausência recorrente. as salas costumam estar cheias de mulheres comprometidas com a pauta. mulheres que sustentam, contratam, provocam, organizam, insistem. mas, quando a conversa precisa chegar aos homens que ocupam cargos de decisão, às lideranças masculinas, aos pais, aos educadores, aos meninos, algo muitas vezes se perde.

a pauta parece avançar no discurso, mas ainda encontra resistência quando precisa tocar o modo como homens foram ensinados a viver.

nas rodas com homens, uma pergunta simples costuma abrir caminhos difíceis:

o que é ser homem?

as respostas mudam de acordo com o grupo, a idade, o contexto social e o território. mas algumas palavras voltam muitas vezes. força. responsabilidade. controle. coragem. provisão.

a palavra provedor aparece com frequência.

durante muito tempo, ela também me atravessou. eu entendia meu lugar de homem, marido e pai a partir da ideia de que eu precisava dar conta. proteger. resolver. sustentar. segurar tudo.

foi a doença da Mi, a experiência do cuidado, a paternidade e o luto que desorganizaram esse roteiro em mim.

diante de uma doença grave, eu descobri que amar não era controlar o desfecho. cuidar não era resolver tudo. estar presente não era impedir a dor. ser pai não era apenas prover. e ser homem não podia continuar significando aguentar em silêncio.

essa travessia pessoal não me tirou do mundo dos homens. ao contrário. ela me aproximou de outros homens.

passei a reconhecer em muitas falas aquilo que eu também havia aprendido: a dificuldade de pedir ajuda, o medo de parecer fraco, o silêncio diante da tristeza, a vergonha de não dar conta, a solidão escondida atrás da aparência de controle.

o problema não começa no homem adulto.

começa antes.

começa quando ensinamos meninos a serem fortes antes de serem inteiros. quando ensinamos que chorar é fraqueza, que cuidado é coisa de mulher, que pedir ajuda é sinal de incapacidade, que afeto entre homens é suspeito, que vencer importa mais do que sentir, que ser respeitado passa por não demonstrar vulnerabilidade.

depois, nos surpreendemos quando esses meninos se tornam homens com pouco vocabulário para o medo, a frustração, o cuidado, o luto, a presença e a responsabilidade afetiva.

é por isso que o Projeto Meninos se tornou uma parte importante do meu trabalho. porque não basta conversar com homens depois que os roteiros já produziram sofrimento, distância ou violência. também precisamos olhar para a origem. para a forma como meninos aprendem sobre emoções, pertencimento, cuidado, corpo, poder, amizade, família e identidade.

trabalhar com homens não é inocentar homens.

não é colocá-los no centro de tudo novamente.

não é transformar sofrimento masculino em desculpa para irresponsabilidade.

é justamente o contrário.

é reconhecer que a igualdade de gênero também exige que os homens sejam chamados para a conversa, para a escuta, para a responsabilização e para a construção de outras formas de presença.

homens precisam participar da mudança não como protagonistas heroicos, mas como parte implicada do problema e da solução.

quando falo sobre masculinidades, paternidade, cuidado e luto, falo desse lugar. de alguém que foi atravessado pela vida, pela perda, pela criação dos filhos, pela escuta de outros homens e pela pergunta sobre o que ainda estamos ensinando aos meninos.

acredito que uma sociedade mais justa precisa de mulheres mais livres.

mas também precisa de homens menos presos aos roteiros antigos.

homens que saibam cuidar.

homens que saibam pedir ajuda.

homens que consigam permanecer em conversas difíceis.

homens que reconheçam seus privilégios, suas responsabilidades e suas fragilidades.

homens que não confundam presença com controle.

homens que possam aprender, desde meninos, que força também pode ser ternura, escuta, limite, reparação e cuidado.

talvez seja esse um dos trabalhos mais importantes do nosso tempo:

criar novos roteiros para que meninos não precisem se tornar homens tão distantes de si mesmos.

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