quando a vida sai do lugar
há um momento em que a vida deixa de responder ao nome que tinha.
as coisas continuam ali: a casa, os horários, as crianças, a pia, os dias.
mas já não se encaixam da mesma forma.
tudo parece conhecido
e, ao mesmo tempo, irreconhecível.
foi assim que comecei a escrever.
não por projeto.
não por disciplina.
não por desejo de publicar.
escrevi porque alguma coisa precisava encontrar forma.
entre consultas, remédios, silêncios
e tarefas que se acumulavam,
a escrita apareceu como um lugar
onde eu ainda conseguia me escutar.
não para organizar.
nem para entender.
mas para não desaparecer inteiro
dentro do que estava acontecendo.
às vezes, escrever era só isso:
um gesto mínimo de permanência.
voltar para a página
como quem volta para uma cadeira vazia
e senta —
mesmo sem saber o que dizer.
foi desse lugar
que vieram perguntas que ainda ficam.
sobre cuidado.
sobre luto.
sobre presença.
sobre o que os homens aprendem a calar
para continuar funcionando.
e o que acontece
quando já não dá mais
para funcionar do mesmo jeito.
talvez tenha começado assim:
como uma forma de continuar existindo
quando a vida saiu do lugar.