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Paternidade: a construção de vínculo na presença

Uma palestra sobre luto, masculinidade, cuidado e o que acontece quando um homem precisa reaprender a estar presente.

No TEDx Campinas, contei parte da minha história depois da morte da Micaela: a paternidade da Maria Clara e do Francisco, a solidão, os grupos de homens, a escrita, a vulnerabilidade e a descoberta de que o cuidado também constrói vínculo.

Rafael Stein com Maria Clara e Francisco no palco do TEDx Campinas
Rafael Stein com Maria Clara e Francisco no TEDx Campinas.

Esta página reúne o vídeo, o contexto e a transcrição da palestra Paternidade: a construção de vínculo na presença, apresentada no TEDx Campinas.

A fala atravessa temas que seguem orientando meu trabalho: masculinidade, paternidade, luto, cuidado, presença, grupos de homens e reconstrução emocional masculina.

vídeo

Assista à palestra TEDx Campinas

A palestra também está disponível no canal do TEDx no YouTube e na página oficial do TED.

paternidade: a construção de vínculo na presença

Uma fala sobre o caminho entre a perda, o cuidado cotidiano e a presença possível na vida dos filhos.

sobre a palestra

Uma fala sobre presença, cuidado e vínculo

A palestra nasce de uma ruptura: o diagnóstico de câncer da Micaela, os quase dois anos de tratamento e o dia em que voltei para casa, depois do enterro, sozinho com duas crianças.

A partir dessa experiência, falo sobre o que muitos homens aprendem a esconder: medo, solidão, desamparo, vulnerabilidade e a dificuldade de pedir ajuda.

Mas a palestra também fala sobre reconstrução. Sobre grupos de homens, escrita, cuidado, presença cotidiana e a descoberta de que a paternidade não se constrói apenas nos grandes gestos, mas principalmente nas pequenas tarefas da vida.

temas

O que a palestra atravessa

O TEDx reúne alguns dos temas centrais da minha trajetória pessoal e do meu trabalho atual com homens, famílias, organizações e grupos.

trechos

Frases da palestra

“Foi preciso tirar a bota, colocar os pés descalços no chão e recomeçar.”

“Eu queria me reconhecer em outros homens, ver que existia, apesar de tudo, um caminho a ser percorrido.”

“Só poderia estar presente na vida dos meus filhos se estivesse presente na minha vida.”

“Nessas pequenas coisas, nesses cuidados, é no toque que nos tornamos pais.”

transcrição

Texto da palestra

Era final do ano, próximo do Natal, e eu e a Micaela, minha esposa, conversávamos sobre como havia sido o dia, a família, as festas que se aproximavam e os presentes das crianças.

Nós temos dois filhos, a Maria Clara e o Francisco.

Enquanto eu a ouvia, meu pensamento estava no trabalho, nos projetos que precisava entregar e em todas as contas que tinha que pagar.

Naquela altura da conversa, as crianças já estavam dormindo.

Ela falava sobre a casa, a lista de compras do supermercado, o agendamento da minha consulta no oculista, a máquina de lavar que começou a vazar, como tinha sido o dia da Maria na escola e algo que o Francisco tinha feito pela primeira vez.

Ela seguia a lista interminável enquanto se despia para entrar no banho. Então houve um silêncio momentâneo. Ela me chamou dizendo que havia sentido um caroço no seio esquerdo.

Nosso filho, então com dez meses, ainda mamava no peito. Em um primeiro momento, pensamos que era algo relacionado à amamentação.

Desde que ela notara o caroço, foram mais quinze dias com exames, biópsia e a fobia de agulha.

Minha esposa tinha fobia de agulhas. Tinha medo. Mas não era qualquer medo: era pavor mesmo. Desde o namoro, eu era seu companheiro nos momentos de um simples exame de sangue, quando ela me mordia, gritava, me batia e chegava a desmaiar.

Ela enfrentou todas as sedações, e foram muitas, até o diagnóstico.

“Nós temos um tumor, temos um tumor sim”, disse o médico. Era uma sexta-feira e, ao sairmos da clínica, já era noite. Não havia estrelas no céu. Naquela escuridão, o futuro se apresentava sem avisar.

A frase parecia ter ativado a programação de uma bomba-relógio. Em silêncio, caminhando até o carro, olhei para ela, ouvi o barulho do sapato tocando o chão, senti o cheiro do perfume que ela usava, senti o calor da mão dela e apertei bem forte.

Segui ao seu lado e, enquanto a olhava, senti que estávamos diferentes. Como podemos mudar tão rápido?

Ela falava sobre o diagnóstico que acabara de ouvir, sobre ser tão jovem, ter uma alimentação saudável, não fazer parte de nenhum grupo de risco e sobre o que estava por vir.

Não tínhamos ideia do que estava por vir.

Eu tentei desenhar um futuro na minha cabeça, mas a estrada que eu via não existia mais. Quanto tempo eu ainda a teria ao meu lado? Eu não sabia o que falar, não sabia como me portar diante dela. Mas eu queria cuidar dela e dos meus filhos. Só não sabia como fazer.

Entre quimioterapia, mastectomia, radioterapia, cuidados paliativos e agulhas, foram quase dois anos de tratamento.

E teve o dia de voltar para casa, após o enterro da Mi.

Eu não tive tempo de chorar. Tinha as crianças, e elas precisavam do banho e do jantar. Me recordo de deitar com os dois na minha cama, um de cada lado, e me ver sozinho com eles pela primeira vez.

Sinceramente, não me recordo de ter conseguido dormir. Sem conseguir sentir ou dimensionar o que acabara de acontecer, foi como se eu tivesse tomado uma anestesia.

No dia seguinte, ao me levantar, caminhei até a sala. O sol ainda não havia nascido. Me vi em pé, na cozinha, abrindo o armário. Sabia que estava ali para pegar a mamadeira do Francisco, mas fiquei olhando paralisado enquanto fui atropelado por uma enxurrada de pensamentos: “O que eles vão almoçar?” “Será que têm roupas limpas?” “Será que preciso comprar roupas novas?”

A Mi sempre dizia que tinha de comprar, pois estavam crescendo rápido e as roupas não serviam de um dia para o outro. Foi assim que me vi o dono da casa. Hoje, sei que, naquela manhã, tive que assumir o protagonismo que nunca fora meu.

A vida foi retomando para as pessoas ao meu lado e eu acionei o botão do super-homem, porque achava que precisava dar conta de tudo sozinho.

Me senti sozinho. Eu achava que estava sozinho. E fui sufocando emoções, palavras e lágrimas. Afinal, eu precisava ser forte.

Solidão, silêncio, encontro.

Eu precisava me encontrar, pois já não cabia mais no tempo que a sociedade me impunha. Precisei me despir de preconceitos, estar nu, tirar a armadura que vesti ao longo da vida para me proteger.

Encontrei e passei a frequentar alguns grupos reflexivos de homens. No começo, ainda tinha resistência. Sentia vergonha, muitas vezes constrangimento.

Lembro do primeiro encontro, na primeira roda de que participei. Após um exercício de respiração, foi proposta uma dança circular indígena, na qual nós, homens, todos abraçados, repetíamos o mesmo movimento.

Eu olhei para aqueles homens e pensei: “O que estou fazendo aqui? Uma roda? Homens dançando? Para quê? Eu estou aqui para falar do meu luto.”

Eu queria falar da minha dor.

Ainda estavam impregnadas em mim as ideias masculinas de comportamento e conduta. O mundo à minha volta insistia para que eu voltasse ao tempo anterior ao diagnóstico. Mas a dor que eu sentia era tamanha que já não era possível. Eu precisava sair daquele modelo. Sabia que, se ficasse nele, não conseguiria me reerguer.

Eu precisava de algo novo que me fizesse respeitar a dor que eu estava sentindo.

Eu insisti. Seguindo nessa jornada de encontros e redescoberta, fui me encontrando e encontrando, no outro, o que eu sou e o que quero ser.

Em um desses encontros, uma das atividades era levar um objeto que me desse sensação de poder. Eu levei uma bota que usara para percorrer os 241 km do Caminho do Sol.

Toda vez que eu usava aquela bota, eu me sentia forte. Em muitos dos meus momentos importantes, ela esteve comigo: no nascimento do meu filho, no enterro da minha esposa.

Calçá-la era como vestir a própria armadura da força e do poder.

No exercício proposto, eu deveria abrir mão da minha bota, deixá-la no meio da roda para que outro homem a levasse. Eu deveria me despir da armadura, deixar de ser o homem que eu não queria mais ser.

Ao estar descalço diante de outros homens, senti-me vulnerável. E, ao sentir meus pés tocando o chão, foi como voltar a ser criança.

Ali, tive de admitir minha vulnerabilidade. Venho aprendendo a conviver com ela e, principalmente, venho aprendendo a pedir ajuda.

Eu ainda me sentia sozinho, embora tivesse ao meu lado pessoas importantes. A grande maioria dos meus amigos homens havia se afastado. Não os culpo. Entendo a dificuldade que temos em lidar com a morte, com o luto ou com a presença de uma pessoa enlutada.

Sem minhas botas, procurei por esses homens enlutados, por referências masculinas, pais solos, qualquer homem que tivesse, de alguma maneira, vivido uma dor, sentido solidão e, acima de tudo, já estivesse sem armaduras.

Eu queria me reconhecer em outros homens, ver que existia, apesar de tudo, um caminho a ser percorrido. Alguém que me dissesse que era possível.

E eu me surpreendi. Fui acolhido.

Durante o tratamento da minha esposa, passei a escrever para incentivá-la a se despedir dos meus filhos. Depois que ela se foi, segui escrevendo cartas e bilhetes para que eles lessem no futuro.

Algo que começou de forma despretensiosa, até ingênua, virou livro, poema, música. Hoje entendo que escrevo para mim. Me encontro no papel, entre espaços e pontuações.

Nos grupos de apoio, nas reflexões e na escrita, fui consolidando a certeza de que, para ser o pai que eu quero ser, precisei me reencontrar como homem.

Foi preciso tirar a bota, colocar os pés descalços no chão e recomeçar.

Entendi que só poderia estar presente na vida dos meus filhos se estivesse presente na minha vida, entendendo quem eu sou e o que quero ser, independentemente do que o mundo à minha volta dizia ou diz para eu fazer.

Depois do diagnóstico, tive de aprender a viver uma jornada dupla, tripla. Diminuí a carga de trabalho, passei a acordar mais cedo e dormir mais tarde. Passei a ver o quanto Micaela fazia e o quanto eu, como pai, perdia na relação com ela e com meus filhos.

Também passei a perceber o quanto deixava de receber por não estar presente na rotina das pequenas coisas do lar. Preocupava-me com a sobrevivência e o sustento da casa, mas não me atentava ao que mais fazia sentido.

Tenho me esforçado para ser o pai da Maria Clara e do Francisco no presente, no dia a dia, nas coisas simples, nas pequenas coisas: na hora do banho, de fazer a comida, ajudando meu filho quando ele pede para ir ao banheiro, virando a noite medindo a febre, levando e buscando na escola, participando do grupo de mães do WhatsApp, dizendo sim e não com mais consciência.

Um mês depois que minha esposa faleceu, Maria retornou às aulas de ballet. Somente na manhã do dia da aula me lembrei de que minha filha teria que usar um coque.

Minha primeira reação foi procurar tutoriais no YouTube. Para meu desespero, descobri que existem diversos tipos de coques. Cliquei no primeiro que tinha a imagem de uma bailarina. Assisti ao vídeo de aproximadamente cinco minutos e achei que não seria uma tarefa complicada.

Levei quarenta minutos para fazer o coque. Sim, eu cronometrei. Ao mesmo tempo, Maria dizia: “Ai”, “Mamãe não fazia assim” e outras frases que não me recordo agora.

Consegui chegar a um resultado estético satisfatório e fomos ao ballet. Para validar o trabalho, fui falando para todo mundo que se aproximava que eu havia feito o coque.

Ao iniciar a aula, fiz uma comparação com todos os coques das demais bailarinas. Modéstia à parte, o que fizemos estava acima da média. Mas, ao final da aula, o coque estava desmanchando.

Maria me deu uma bronca de leve e fiquei decepcionado com o resultado.

Voltei para casa preparado. Fui a uma loja especializada e comprei tudo que tinham para fazer coque: escova, borrifador de água, spray de fixação, gel, grampos, presilhas, tic-tacs de tamanhos variados e até uma escova de finalização que eu nem sabia que existia.

Fui melhorando no coque. Eu e Maria passamos a nos divertir e chegamos ao recorde de menos de cinco minutos. Faço outros tipos de coque também. O coque passou a ser um momento especial, um momento só nosso.

Minha esposa era bailarina. Se ela estivesse viva, eu nunca teria me permitido viver esses momentos. Não que ela me proibisse. Mas eu nunca teria parado para viver isso. Eu não me interessaria.

Nunca foi só ballet para minha esposa. E, agora, eu a entendo.

Nessas pequenas coisas, nesses cuidados, é no toque que nos tornamos pais. Presentes no dia a dia, construindo vínculos que nos dão a oportunidade de sentir os bracinhos deles no nosso pescoço.

Assim, encostamos na eternidade e temos a chance de continuar vivos mesmo depois da morte chegar.

depois do tedx

Da fala ao trabalho com homens, paternidade e cuidado

O TEDx foi um marco público de uma travessia que continuou depois.

A experiência do luto, da paternidade solo, dos grupos de homens e da escrita foi se transformando em pesquisa, linguagem e trabalho.

Hoje atuo com grupos, palestras, workshops e processos de escuta sobre masculinidades, paternidade, luto, cuidado, presença e cultura emocional masculina.

O que apareceu na palestra como história pessoal se tornou parte de uma investigação maior: como homens aprendem a cuidar, como lidam com perdas, como sustentam vínculos e como podem construir formas menos solitárias de estar no mundo.

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Textos e páginas relacionadas

Alguns conteúdos ajudam a continuar a conversa iniciada no TEDx: masculinidade, paternidade, luto, cuidado, presença e grupos de homens.

faq

Perguntas frequentes

Qual é a palestra TEDx de Rafael Stein?

A palestra se chama Paternidade: a construção de vínculo na presença e foi apresentada no TEDx Campinas.

Sobre o que fala a palestra?

A palestra fala sobre paternidade, luto, masculinidade, cuidado, vulnerabilidade e presença a partir da experiência de Rafael após a morte de sua esposa, Micaela.

Onde assistir à palestra TEDx de Rafael Stein?

A palestra pode ser assistida no YouTube e também na página oficial do TED.

O que Rafael Stein faz hoje?

Rafael Stein é facilitador e escritor. Atua com masculinidades, paternidade, luto, cuidado e grupos de homens, além de desenvolver palestras, workshops e processos para organizações, escolas e projetos sociais.

Onde ler textos de Rafael Stein?

Os textos de Rafael estão reunidos na seção ler do site, com crônicas e reflexões sobre luto, paternidade, masculinidade, cuidado e vida cotidiana.