artigo · luto e masculinidades

Por que tantos homens vivem o luto tentando continuar funcionando?

Quando voltei para casa depois do enterro da Mi, eu queria chorar.

Mas havia duas crianças que precisavam de banho e jantar.

Naquela noite, deitei com os dois na minha cama, um de cada lado. Na manhã seguinte, antes de o sol nascer, fui até a cozinha. Abri o armário para pegar a mamadeira do Francisco e parei.

O que eles vão comer hoje? Tem roupa limpa? O que precisa ser comprado? Como vou organizar a casa? Quem vai fazer tudo aquilo que até então simplesmente acontecia?

Minha mulher tinha morrido. Eu estava de luto. Mas havia também uma casa e duas crianças que continuavam precisando de cuidado.

Foi assim que comecei a viver o luto: funcionando.

Anos depois, descobri que essa experiência não era apenas minha.

Um estudo publicado em 2026 no American Journal of Men's Health entrevistou 18 homens viúvos para compreender como eles viviam o luto pela morte da companheira e como percebiam a necessidade de ajuda.

Um dos achados foi justamente a tendência de subordinar o próprio luto às responsabilidades paternas e familiares. Cuidar dos filhos, manter a casa e continuar cumprindo suas funções apareciam antes do processamento da própria dor.

Não significa que todos os homens vivam o luto dessa maneira. O estudo foi realizado em Taiwan, com um grupo pequeno, e as formas de viver uma perda são atravessadas também por cultura, idade, classe, vínculos, circunstâncias da morte e muitas outras dimensões.

Mas há algo nessa descrição que ajuda a compreender uma experiência masculina que muitas vezes permanece pouco visível.

Enquanto eu conseguir funcionar, está tudo bem?

Outro achado da pesquisa me chamou atenção.

Para muitos dos homens entrevistados, o sofrimento passava a ser percebido como um problema principalmente quando começava a comprometer o funcionamento cotidiano.

Enquanto conseguiam trabalhar, cuidar da família e cumprir suas responsabilidades, havia uma tendência a considerar que estavam conseguindo lidar com a perda.

Isso desloca uma pergunta importante.

Talvez muitos homens não reconheçam a gravidade do próprio sofrimento pela intensidade da dor, mas pelo momento em que deixam de conseguir funcionar.

Eu conheço esse lugar.

Depois que a Mi morreu, tentei fazer tudo. Cuidar das crianças, da casa, do trabalho, das contas, das decisões que precisavam ser tomadas. Durante algum tempo, minha resposta para a ausência foi aumentar minha capacidade de fazer.

Era como se dar conta fosse a prova de que eu ainda estava de pé.

O problema é que funcionar e estar bem são coisas diferentes.

Um homem pode levar os filhos para a escola, responder mensagens, participar de reuniões, pagar contas, preparar o jantar e ainda assim estar profundamente sozinho dentro da própria dor.

E talvez ninguém perceba.

Às vezes, nem ele.

O luto também encontra aquilo que aprendemos sobre ser homem

Homens não chegam ao luto sem história.

Chegamos carregando aquilo que aprendemos sobre medo, dependência, choro, controle, força, responsabilidade e necessidade de ajuda.

Um trabalho publicado também em 2026, na revista Psychodynamic Practice, discute justamente como determinadas formas masculinas de dor, medo e vulnerabilidade podem se tornar difíceis de reconhecer. A associação entre masculinidade, força e controle pode contribuir para que o sofrimento masculino seja contido, deslocado ou até interpretado de outras maneiras.

Isso ajuda a compreender por que “homens precisam falar mais” é uma resposta verdadeira, mas insuficiente.

Antes de falar, é preciso reconhecer aquilo que está acontecendo.

Antes de pedir ajuda, é preciso admitir para si mesmo que precisar de ajuda não significa ter fracassado.

E isso pode ser especialmente difícil no luto.

A morte produz justamente aquilo contra o que muitos homens foram ensinados a se defender: impotência.

Não existe solução para a morte de alguém que amamos. Não existe tarefa que resolva a ausência. Não existe competência suficiente para reorganizar aquilo que foi perdido.

Ainda assim, fazer pode ser uma maneira de atravessar o luto.

O problema não está em fazer.

Está em fazer sozinho porque essa parece ser a única maneira possível de continuar sendo homem.

Quem cuida do homem que continua cuidando?

No meu caso havia ainda uma camada importante: eu não podia simplesmente parar.

Eu tinha dois filhos pequenos.

A paternidade não desapareceu quando começou o luto. Pelo contrário. O cuidado ocupou ainda mais espaço.

Essa relação entre masculinidade, paternidade e luto aparece também em pesquisas brasileiras.

Um estudo publicado na revista Interface – Comunicação, Saúde, Educação, realizado com pais que perderam filhos, identificou particularidades do luto paterno relacionadas à despedida, ao apoio social e às próprias representações da paternidade. Os autores chamam atenção para o modo como mandatos culturais masculinos podem contribuir para a invisibilização social do luto dos pais.

São perdas diferentes da minha e não devem ser confundidas. Perder uma companheira e perder um filho são experiências distintas.

Mas os estudos se encontram em um ponto: o homem enlutado continua sendo atravessado pelos papéis que ocupa e pelas expectativas sobre como deveria desempenhá-los.

Pai.

Provedor.

Companheiro.

Profissional.

Aquele que resolve.

Aquele que sustenta.

Aquele que continua.

Por isso talvez exista uma pergunta anterior a “como ajudar um homem a falar sobre o luto?”:

quem percebe que aquele homem também precisa ser cuidado?

Eu demorei para encontrar outros homens

Durante muito tempo, procurei referências.

Homens viúvos. Pais solos. Alguém que tivesse atravessado alguma coisa parecida e pudesse me mostrar não exatamente como fazer, mas que era possível continuar.

Encontrei poucas.

As pessoas que mais se aproximaram para ajudar eram, em sua maioria, mulheres.

Demorei dois anos para chegar ao meu primeiro grupo de homens.

Foi ali que comecei a encontrar algo que havia procurado desde o início: outros homens falando sobre medo, perda, filhos, relações, fracassos, amor e aquilo que não sabiam fazer.

Não porque todos tivessem vivido o mesmo que eu.

Mas porque eu finalmente não precisava ser o único homem dentro daquela conversa.

Hoje participo e facilito espaços de conversa entre homens, inclusive com homens atravessados por doença, cuidado e luto. Isso mudou a maneira como compreendo aquela busca dos primeiros anos.

Um grupo não elimina o luto. Também não substitui terapia, acompanhamento profissional ou outras formas de cuidado quando são necessárias.

Mas pode romper uma coisa que pesa muito sobre alguns homens: a sensação de que precisam descobrir sozinhos como atravessar aquilo que estão vivendo.

Talvez precisemos reconhecer o luto antes que o homem pare de funcionar

Existe uma imagem social bastante conhecida do homem que desaba.

Ele deixa de trabalhar. Começa a beber demais. Se isola completamente. A saúde piora. As relações se rompem. Alguma coisa finalmente torna visível que aquele homem não está bem.

Talvez estejamos chegando tarde.

Se esperarmos a incapacidade de funcionar para reconhecer o sofrimento masculino, deixaremos invisível uma quantidade enorme de dor que continua indo ao trabalho, levando crianças para a escola, respondendo mensagens e preparando o jantar.

O homem não precisa estar destruído para precisar de cuidado.

Essa talvez seja uma das conversas que precisamos ampliar quando falamos de luto masculino.

Não ensinar homens simplesmente a sofrer de outra maneira.

Nem criar uma forma correta de viver o luto.

Mas ampliar as possibilidades disponíveis.

Chorar e fazer.

Falar e permanecer em silêncio.

Cuidar e ser cuidado.

Pedir ajuda antes que tudo pare de funcionar.

Porque continuar funcionando pode ser uma maneira de sobreviver a uma perda.

Não deveria precisar ser a única.

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