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paternidade e cuidado: o que o relatório da equimundo revela sobre os pais hoje

o problema não é apenas a ausência dos pais.

é a forma como ainda ensinamos homens a medir seu valor pelo trabalho, pelo sustento e pela capacidade de aguentar tudo sozinhos.

o novo relatório da equimundo, state of the world’s fathers 2026, traz uma frase que poderia atravessar muitas casas, empresas, escolas e conversas entre homens:

pais querem cuidar, mas muitos ainda não encontram condições para isso.

a pesquisa ouviu pais, mães e cuidadores em diferentes países e aponta uma crise que não é apenas individual.

não se trata só de homens que não querem participar, nem de famílias que não conseguem se organizar.

o relatório fala de algo maior: uma crise do cuidado.

uma crise de tempo.
de dinheiro.
de trabalho.
de presença.
de saúde emocional.
de políticas públicas.
e também de masculinidade.

porque, quando falamos de paternidade, ainda existe uma pergunta escondida em muitas conversas: o que faz de um homem um bom pai?

durante muito tempo, a resposta mais comum foi simples: prover.

o bom pai era aquele que trabalhava, sustentava, resolvia, protegia, pagava as contas e carregava a responsabilidade em silêncio.

a presença afetiva podia até existir, mas muitas vezes aparecia como complemento.

o centro da identidade paterna estava fora de casa.

no trabalho.
na renda.
no sobrenome.
na autoridade.
na imagem de homem que dá conta.

o relatório da equimundo mostra que essa lógica continua muito viva.

muitos homens dizem não se sentir homens o bastante quando não conseguem prover financeiramente suas famílias.

ao mesmo tempo, muitos pais afirmam querer cuidar mais, estar mais presentes e participar da vida doméstica e emocional dos filhos.

é aí que aparece a contradição.

o pai quer estar perto, mas sente que precisa trabalhar mais.

quer cuidar, mas aprendeu que cuidado é tarefa menor.

quer dividir a casa, mas cresceu ouvindo que casa era assunto de mulher.

quer estar emocionalmente disponível, mas foi formado para não demonstrar fragilidade.

quer pedir ajuda, mas aprendeu que homem resolve sozinho.

essa tensão não nasce quando um filho nasce.

ela começa muito antes.

começa quando um menino aprende que chorar é fraqueza. quando entende que delicadeza pode virar motivo de piada. quando percebe que cuidar dos irmãos, arrumar a casa ou falar sobre medo pode colocá-lo em risco diante de outros meninos.

começa quando ele escuta, de forma direta ou indireta, que ser homem é não precisar de ninguém.

depois, anos mais tarde, pedimos que esse homem seja um pai presente, sensível, cuidadoso, comunicativo, corresponsável e emocionalmente disponível.

mas não ensinamos isso a ele.

ou ensinamos muito pouco.

cuidado não nasce automaticamente junto com a paternidade.

cuidado se aprende.
se pratica.
se autoriza.
se sustenta.

e precisa encontrar condições reais para existir.

por isso, talvez uma das contribuições mais importantes do relatório seja tirar a paternidade do campo da boa vontade individual.

não basta dizer que os pais precisam participar mais.

participar de quê, com que tempo, com que rede, com que licença, com que apoio, com que saúde mental, com que repertório emocional?

um pai não cuida no abstrato.

ele cuida quando consegue sair do trabalho para levar o filho ao médico.

quando tem licença para estar nos primeiros dias de vida da criança.

quando não é ridicularizado por priorizar uma reunião escolar.

quando a empresa entende que cuidado também é responsabilidade de homens.

quando há políticas públicas que reconhecem o custo real de criar filhos.

quando a escola inclui os meninos na conversa sobre cuidado, emoções e convivência.

quando outros homens não tratam presença paterna como exceção ou favor.

a paternidade não é só uma experiência privada.

ela é atravessada por cultura, economia, trabalho e política.

mas também é atravessada por linguagem.

muitos homens não sabem dizer que estão cansados. não sabem nomear a culpa. não sabem falar do medo de falhar. não sabem reconhecer que confundiram sustento com presença. não sabem conversar sobre o peso de serem vistos apenas como provedores.

e, quando não há linguagem, muitas coisas viram silêncio.

o silêncio vira distância.

a distância vira ausência.

e a ausência, muitas vezes, é interpretada apenas como falta de amor.

mas nem toda ausência paterna nasce da falta de amor.

algumas nascem da falta de estrutura.

outras nascem da falta de repertório.

outras, ainda, nascem de uma formação masculina que ensinou o homem a estar no mundo sempre em estado de defesa, desempenho e cobrança.

isso não absolve os homens de responsabilidade.

pelo contrário.

responsabilizar homens também é ajudá-los a enxergar os roteiros que repetem, os privilégios que carregam, as ausências que produzem e as possibilidades que podem construir.

mas responsabilizar não é apenas acusar.

é criar condições para que eles possam se implicar de verdade.

é por isso que grupos de homens, processos reflexivos, conversas em escolas, formações em empresas e espaços de escuta importam tanto.

não como solução mágica.

não como lugar para homens se sentirem especiais por descobrirem o óbvio.

mas como espaços onde seja possível interromper padrões antes que eles virem destino.

a crise da paternidade também é uma crise da formação dos meninos.

se queremos pais mais presentes no futuro, precisamos perguntar o que estamos ensinando aos meninos agora.

eles aprendem a cuidar?

aprendem a limpar?

aprendem a pedir desculpa?

aprendem a reconhecer medo, raiva, vergonha e tristeza?

aprendem que força também pode ser vínculo?

aprendem que uma casa não se sustenta apenas com dinheiro?

aprendem que amar não é controlar?

aprendem que presença não é favor?

essa conversa precisa começar cedo.

porque um homem não se torna cuidador apenas quando segura um bebê no colo.

ele começa a se tornar cuidador quando, ainda menino, descobre que pode existir fora da obrigação de ser duro o tempo inteiro.

o relatório da equimundo ajuda a colocar dados em uma experiência que muitas famílias já vivem no cotidiano: pais e mães estão sobrecarregados, crianças precisam de adultos presentes, empresas ainda tratam cuidado como assunto secundário e muitos homens seguem presos a uma ideia estreita de valor masculino.

a saída não está em trocar um ideal impossível por outro.

não precisamos do pai perfeito.

precisamos de pais possíveis.

pais que aprendam.
que conversem.
que dividam.
que errem e reparem.
que estejam.
que não confundam sustento com amor inteiro.
que entendam que cuidado não diminui a masculinidade.

alarga.

talvez a pergunta mais importante não seja apenas como fazer homens cuidarem mais.

talvez seja:

que tipo de masculinidade torna o cuidado possível?

enquanto essa pergunta não entrar nas casas, nas escolas, nas empresas, nas políticas públicas e nas conversas entre homens, seguiremos tratando a presença paterna como exceção bonita.

mas pai presente não deveria ser exceção.

deveria ser condição possível.

fonte: equimundo — state of the world’s fathers 2026: stretched to the breaking point.

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