vamos sair da orla e vamos para o oceano
No encerramento do lançamento de Trabalho dos Homens, Regina Célia disse uma frase que ficou comigo desde então: “Vamos sair da orla e vamos para o oceano.” Saí daquela noite com a sensação de que ela não estava apenas fechando uma mesa de debate com uma boa imagem. Ela estava nomeando, com precisão, o momento em que estamos quando falamos de masculinidades, violência, educação e cuidado.
A orla é o lugar em que ainda conseguimos ver a terra. É onde reconhecemos o terreno, organizamos os conceitos, produzimos diagnósticos, reunimos dados, publicamos pesquisas, criamos metodologias e começamos a construir repertório. Nas últimas décadas, avançamos muito nessa direção. Hoje temos mais linguagem para falar de violência de gênero, mais estudos sobre socialização masculina, mais grupos reflexivos, mais experiências em escolas, mais organizações interessadas em discutir cuidado, paternidade, presença, responsabilização e cultura emocional dos homens. Temos livros, documentários, programas, rodas, materiais de formação e uma produção importante sendo feita por gente que insiste nesse tema há muitos anos.
Isso não é pouco. Ao contrário: é o que permitiu que muita coisa que antes permanecia invisível pudesse finalmente ser nomeada. Talvez por isso a frase da Regina tenha me atravessado. Ela aponta para o passo seguinte. A orla é o lugar onde aprendemos a identificar o problema. O oceano começa quando a pergunta deixa de ser apenas “o que está acontecendo?” e passa a ser “o que estamos dispostos a construir para que isso mude?”
Essa mudança de pergunta importa porque ela muda também o tamanho da tarefa. Durante a mesa, Regina falou sobre a geracionalidade da violência. Falou sobre uma realidade dura para quem trabalha com o tema: muitas vezes, o sistema atende a avó, depois a mãe, depois a filha. A violência, nesse caso, não aparece apenas como um episódio isolado ou como um desvio individual. Ela atravessa gerações, famílias, instituições, territórios e formas de educar. E, se é assim, a resposta a ela não pode ser apenas reativa. Não pode começar apenas quando a violência já aconteceu, quando a denúncia já foi feita ou quando o homem adulto já está diante do sistema. Ela precisa alcançar o que vem antes: os meninos, a escola, os adultos que convivem com eles e os espaços em que se aprende, muitas vezes sem perceber, o que é ser homem, o que é poder, o que é cuidado, o que é respeito e o que é violência.
Na mesma mesa, Adriano Beiras trouxe um ponto que considero decisivo: não basta falarmos de “novas masculinidades” se não estivermos dispostos a falar de relações de poder. Essa observação me parece central porque existe sempre o risco de atualizarmos o vocabulário sem tocar na estrutura. Um homem pode aprender a falar de emoções, aderir a uma linguagem mais sensível, se aproximar de temas como cuidado e presença e, ainda assim, continuar reproduzindo relações de dominação, hierarquia, controle e desigualdade. Se a conversa sobre masculinidades não toca o poder, ela corre o risco de virar apenas uma renovação estética daquilo que pretende criticar.
Talvez seja justamente aí que a imagem do oceano fique ainda mais forte. Sair da orla, nesse caso, é aceitar que a conversa precisa ir além do comportamento visível e alcançar as lógicas que sustentam esse comportamento: lógicas de poder, de pertencimento, de autorização, de punição, de silêncio e de desigualdade que seguem organizando a vida de meninos e homens muito antes de eles conseguirem nomear o que estão vivendo. Não se trata apenas de perguntar por que determinados homens reproduzem violência, mas de entender como determinadas formas de ser homem continuam sendo produzidas, reforçadas e legitimadas no cotidiano.
Foi nesse ponto que a fala do Felipe Requião me pareceu especialmente importante. Ao falar do Projeto Meninos, ele trouxe a discussão para o chão da escola, para o momento em que uma piada aparece, uma frase violenta é repetida, uma crença é exposta ou uma tensão se instala no grupo. Ali, a discussão deixa de ser abstrata. Ela ganha corpo, contexto e urgência. Felipe falava da necessidade de oferecer espaços para que os meninos possam ser, mas com uma condição fundamental: esse “ser” precisa ter contorno. Meninos precisam de espaço para falar, experimentar, repetir discursos, errar, se contradizer e elaborar. Mas esses espaços não podem ser vazios de presença adulta. Eles precisam de adultos preparados para intervir quando necessário, nomear o que apareceu, sustentar o desconforto, oferecer outras referências e transformar o erro em aprendizado.
Essa me parece uma das questões mais importantes do trabalho com meninos hoje. O que fazemos quando uma fala machista aparece? O que fazemos quando um adolescente repete um discurso que ouviu em casa, na internet, no grupo de amigos ou no algoritmo que passou a formá-lo? O que fazemos quando um comentário violento surge no meio de uma roda, de uma aula, de um intervalo ou de uma brincadeira? Se o adulto se cala, o silêncio pode funcionar como autorização. Se o adulto apenas pune, talvez perca a chance de produzir elaboração. Se o adulto não está preparado, o momento passa e, com ele, passa também a possibilidade de intervir antes que aquela crença se consolide como verdade.
É justamente por isso que a prevenção da violência não pode ser pensada apenas como boa vontade ou como um apelo genérico para que as escolas “falem sobre o tema”. Não basta desejar que a escola dê conta. É preciso equipá-la. É preciso formar profissionais, construir metodologias, oferecer repertório e criar sustentação para que professoras, professores, orientadores, psicólogos, assistentes sociais e facilitadores não sejam deixados sozinhos diante de questões que são complexas, delicadas e urgentes. Também não faz sentido continuar tratando esse debate como algo periférico, restrito a especialistas ou a situações em que a violência já aconteceu. Se a geracionalidade da violência é real, então o trabalho de prevenção precisa entrar mais cedo, com mais consistência e com muito mais gente implicada.
Esse ponto me parece ainda mais importante num momento em que cresce a circulação de discursos simplistas, ressentidos e violentos sobre o que significa ser homem. Crescem narrativas que oferecem aos meninos respostas rápidas, identidades prontas e culpados fáceis para dores que são muito mais complexas do que parecem. A pergunta, então, deixa de ser apenas “como responsabilizar homens que já cometeram violência?” e passa a ser também: quem está formando os meninos hoje? Quem está ocupando esse espaço? Quem está ajudando a nomear a diferença entre cuidado e controle, entre conflito e violência, entre presença e posse, entre frustração e humilhação, entre masculinidade e dominação?
A família participa disso. A escola participa disso. Os amigos participam disso. A internet participa disso. Os algoritmos participam disso. As instituições participam disso. E as ausências também participam. Talvez por isso eu tenha saído daquele lançamento pensando menos em “homens” como categoria abstrata e mais nos meninos concretos que hoje estão tentando montar, quase sempre sozinhos, um repertório para viver. Meninos que ainda não sabem nomear o que sentem, mas já aprenderam a performar dureza. Meninos que às vezes reproduzem violências que não compreendem, discursos que não sabem sustentar e crenças que nunca foram convidados a interrogar. Meninos que precisam de limite, mas também de linguagem; de responsabilidade, mas também de amparo; de consequência, mas também de presença.
Talvez seja isso sair da orla. Não abandonar os mapas que já construímos, mas reconhecer que eles, sozinhos, não bastam. Pesquisa é indispensável. Livro é indispensável. Lei é indispensável. Grupo reflexivo é indispensável. Mas tudo isso precisa se transformar em prática, formação, escola equipada, política pública, cultura institucional e adultos capazes de sustentar conversas difíceis sem cair nem no silêncio nem na simplificação. A frase da Regina continua ecoando porque ela nomeia esse deslocamento. Durante muito tempo, boa parte do nosso esforço esteve em conseguir dizer que havia um problema, e isso foi fundamental. Agora, talvez o tamanho do desafio seja outro: como construímos, de forma coletiva, condições para que a próxima geração precise desaprender menos violência do que a nossa precisou?
Não tenho respostas simples para isso. Saí daquele lançamento com a sensação de que essa talvez seja justamente a parte mais honesta do trabalho: reconhecer que a travessia ficou maior. Temos mapas melhores do que tínhamos antes. Temos mais linguagem, mais ferramentas, mais experiências, mais gente remando e mais clareza sobre o tamanho do problema. O que talvez esteja diante de nós agora é a parte menos confortável e mais necessária da tarefa: aceitar que a conversa sobre masculinidades, violência e cuidado já não pode ficar restrita à orla. Ela precisa alcançar o oceano — esse lugar em que a discussão deixa de ser apenas diagnóstico e passa a exigir construção, presença, formação e coragem institucional. A pergunta, no fim, talvez seja menos sobre o tamanho do mar e mais sobre a disposição de entrar nele.