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A machosfera não é um buraco onde os meninos caem

Há pouco tempo, escrevi um artigo chamado Como o algoritmo fisga meninos antes do red pill. Nele, tentei compreender o que acontece antes de um menino chegar aos discursos mais explícitos da machosfera. Falei sobre academia, produtividade, corpo, namoro, dinheiro, autoestima e humor — interesses bastante comuns que podem começar a se misturar a determinados códigos, explicações sobre o mundo e discursos de ressentimento.

Usei uma imagem para organizar esse movimento: um funil.

No topo, interesses cotidianos. Depois, conteúdo aspiracional masculino, sinais de afinidade, memes, códigos de grupo, deslocamento da culpa e normalização de algumas ideias misóginas. Até chegar, lá embaixo, ao red pill, aos gurus e às comunidades que oferecem respostas cada vez mais rígidas sobre homens, mulheres, sexo, poder e relacionamentos.

Continuo acreditando em boa parte daquele texto. Mas a pesquisa The Manosphere, Rewired, publicada pela Equimundo, me fez pensar que talvez eu tenha usado uma imagem excessivamente linear para explicar o que está acontecendo.

Talvez a machosfera não seja exatamente um buraco onde os meninos caem.

E compreender essa diferença pode ser importante para pensarmos no que fazemos antes que o ressentimento pareça uma boa resposta para aquilo que eles estão sentindo.

Talvez não exista um “lá dentro”

A metáfora do rabbit hole, ou buraco do coelho, é bastante conhecida quando falamos de radicalização online. Um adolescente procura um vídeo sobre academia, autoestima ou relacionamento. O algoritmo recomenda outro conteúdo parecido. Depois outro. Aos poucos, os vídeos ficam mais extremos, até que ele teria sido conduzido para dentro de um universo ideológico do qual passa a consumir cada vez mais conteúdo.

Isso pode acontecer. A pesquisa da Equimundo não afirma o contrário.

O que ela coloca em dúvida é a ideia de que esse seja necessariamente o principal percurso.

Ao observar o comportamento de consumo de homens nos Estados Unidos, os pesquisadores encontraram algo mais difuso. Homens que assistiam a canais claramente relacionados a discursos misóginos ou ressentidos também consumiam, no mesmo período, esportes, música, games, comédia, entretenimento e grandes canais convencionais.

Em vez de uma estrada que vai ficando progressivamente mais estreita, aparece uma paisagem muito mais misturada.

E talvez essa diferença torne o problema mais complexo, e não menos preocupante.

Quando pensamos em um buraco, imaginamos dois territórios bem definidos. Aqui fora está o menino. Lá dentro está a machosfera. Nossa tarefa seria, portanto, impedir que ele entrasse ou ajudá-lo a sair.

Mas o que acontece se não houver exatamente um “lá dentro”?

E se algumas das ideias associadas à machosfera já estiverem circulando no meio dos conteúdos cotidianos que meninos e homens jovens consomem?

Elas podem aparecer em um meme, em uma piada, em um corte de podcast, em um vídeo sobre disciplina, numa conversa sobre academia, numa explicação sobre relacionamentos ou em alguém dizendo como um “homem de verdade” deve agir.

Talvez seja mais útil pensar a machosfera não apenas como um conjunto de comunidades para onde alguns homens vão, mas também como uma linguagem que consegue escapar dessas comunidades.

Uma estética. Alguns códigos. Piadas internas. Expressões. Formas de explicar frustrações. Maneiras de interpretar as relações entre homens e mulheres.

Podemos bloquear um canal ou deixar de seguir um influenciador. É muito mais difícil interromper uma ideia depois que ela passou a parecer apenas parte da cultura.

A machosfera não inventou a Caixa dos Homens

Há outra razão pela qual essa mudança de perspectiva me interessa.

Grande parte do que circula hoje na machosfera não nasceu na internet.

Muito antes do YouTube, do TikTok, dos podcasts, do red pill ou dos influenciadores de masculinidade, meninos já aprendiam determinadas regras sobre o que significa ser homem.

Paul Kivel chamou esse conjunto de expectativas de Caixa dos Homens. Décadas depois, a própria Equimundo encontrou normas muito semelhantes em sua pesquisa The Man Box: homens deveriam ser autossuficientes, fortes, heterossexuais, sexualmente potentes, fisicamente atraentes, enquadrados em determinados papéis de gênero e capazes de recorrer à agressividade diante de conflitos.

A machosfera não inventou a Caixa dos Homens.

Aprendeu a traduzi-la para a linguagem da internet.

O velho “homem não chora” pode aparecer agora como discurso sobre controle emocional. A obrigação de provar masculinidade pode virar obsessão por performance. A necessidade de reconhecimento pode encontrar resposta na construção de um corpo específico ou na promessa de dinheiro e status. O medo da rejeição pode ser transformado em uma teoria sobre as mulheres. A dificuldade de lidar com uma frustração pode encontrar alguém disposto a explicar que o problema não está na complexidade dos relacionamentos, mas no feminismo.

A solidão pode ganhar o nome de injustiça. A vergonha pode encontrar um inimigo. A dor pode ser reorganizada como ressentimento.

É por isso que continuo acreditando em uma das ideias do artigo anterior: o algoritmo não precisa inventar a dor de um menino. Ele precisa encontrá-la.

O que talvez eu tenha imaginado de forma linear demais foi o caminho percorrido depois desse encontro.

Uma mesma ideia pode aparecer hoje em um vídeo, desaparecer durante dias e reaparecer em outro contexto. Pode vir de pessoas diferentes, misturada a dezenas de outros conteúdos que não têm nenhuma relação explícita com a machosfera. Até que determinada maneira de enxergar o mundo comece a parecer familiar.

Muitos meninos não estão procurando ódio

Também é importante não transformar essa conversa em outra caricatura.

Meninos e homens jovens não são uma massa passiva sendo inevitavelmente radicalizada por uma tela. A própria pesquisa da Equimundo mostra que a maior parte dos jovens pesquisados não adere às posições mais rígidas, misóginas e ressentidas associadas à machosfera.

Isso deveria nos impedir de olhar para todo menino diante de um celular como um agressor em formação.

Ao mesmo tempo, uma ideia não precisa convencer todo mundo para produzir cultura.

Expressões que nascem em comunidades relativamente pequenas podem aparecer depois em escolas, vestiários, grupos de WhatsApp, mesas de bar e conversas entre adolescentes. Às vezes, quem repete determinada frase sequer sabe de onde ela veio.

Por isso, talvez não seja suficiente perguntar: “Que conteúdo esse menino está assistindo?”

Precisamos perguntar também: que ideias sobre ser homem estão se tornando normais para ele?

Essa pergunta desloca a nossa atenção da plataforma para a socialização.

E nos obriga a olhar para muito antes do algoritmo.

Que respostas estamos oferecendo aos meninos?

Há uma pergunta que tem atravessado meu trabalho há algum tempo: enquanto ampliamos os roteiros disponíveis para meninas, que roteiros continuamos oferecendo aos meninos?

Não faço essa pergunta para diminuir a urgência da igualdade de gênero nem para deslocar para os meninos uma conversa que historicamente precisou enfrentar a violência e a desigualdade sofridas pelas mulheres.

Faço justamente porque essa transformação também depende dos homens.

E porque nenhum homem adulto aparece pronto.

Antes dele havia um menino tentando descobrir como ser respeitado, como ser desejado, como fazer amigos, como lidar com o próprio corpo, como atravessar uma rejeição, como suportar a vergonha, como demonstrar medo e, sobretudo, como pertencer.

Nenhuma dessas perguntas é perigosa.

São perguntas humanas.

O que importa é o tipo de resposta que ele encontra.

Parte da força da machosfera está justamente em reconhecer algumas dessas perguntas. Ela diz ao menino que entende sua solidão, sua inadequação, sua dificuldade de se relacionar, seu medo de não ser desejado, sua sensação de fracasso.

O problema vem depois.

Depois de reconhecer uma dor real, ela oferece uma explicação para essa dor.

E uma explicação pode ajudar alguém a compreender aquilo que sente ou pode ensiná-lo a decidir quem deve odiar por estar sentindo aquilo.

Essa distinção me parece central para qualquer trabalho de prevenção.

Se chegarmos aos meninos apenas para dizer que determinadas respostas estão erradas, talvez tenhamos chegado tarde demais à conversa. Precisamos também ter alguma disposição para escutar as perguntas que vieram antes.

Não basta dizer qual homem eles não devem ser

Uma das provocações da pesquisa da Equimundo me interessa especialmente: em vez de apenas ensinar homens a abandonar determinados comportamentos ou dizer a eles o que seria uma masculinidade “saudável”, precisamos criar experiências nas quais outras maneiras de ser homem possam efetivamente existir.

Essa ideia parece simples, mas muda bastante o trabalho.

Falamos muito aos meninos sobre o homem que não queremos que eles sejam.

Não seja machista. Não seja violento. Não seja misógino. Não seja homofóbico. Não controle. Não agrida.

Tudo isso precisa ser dito. Existem limites que precisam ser claros.

Mas existe uma pergunta depois do “não”:

Então, o que eu posso ser?

Um menino precisa encontrar respostas para essa pergunta na vida, e não apenas em palestras ou campanhas.

Precisa conviver com homens que cuidam, que pedem desculpas, que perdem sem transformar a derrota em humilhação, que conseguem ouvir um não, que procuram ajuda, que cuidam de crianças, que cozinham, que mantêm amizades íntimas com outros homens, que reconhecem seus privilégios e conseguem permanecer numa conversa difícil.

Não para substituir a velha Caixa dos Homens por uma nova lista de exigências sobre o “homem correto”.

O objetivo deveria ser justamente o contrário: ampliar as possibilidades.

Mostrar que existem muitas formas legítimas de habitar a masculinidade sem precisar do controle, da violência ou da submissão de alguém.

A disputa começa antes da tela

Os algoritmos importam. As plataformas têm responsabilidade. Os mecanismos de recomendação, a monetização do ressentimento e a facilidade com que alguém transforma misoginia em audiência precisam continuar sendo investigados e enfrentados.

Mas talvez coloquemos responsabilidade demais na tela quando imaginamos que tudo começa nela.

A Caixa dos Homens começa muito antes.

Começa em casa, na escola, no esporte, nas piadas, na relação com o pai e na relação entre os próprios meninos. Aparece na forma como reagimos quando um menino chora, perde, sente medo, é rejeitado, demonstra carinho, gosta de algo que não corresponde ao que esperávamos dele, precisa de colo, machuca alguém ou precisa reparar um dano.

É nesses espaços que parte do repertório vai sendo construído.

A internet encontra esse menino depois.

E conversa com aquilo que já está ali.

Talvez seja por isso que me interessa cada vez mais trabalhar com meninos antes da crise. Antes da violência. Antes que o silêncio vire uma identidade. Antes que alguém ofereça uma resposta simples para uma experiência humana complicada.

A nova pesquisa da Equimundo talvez esteja propondo apenas uma mudança de metáfora: em vez de imaginar a machosfera somente como um buraco para onde meninos são levados, enxergá-la como algo mais distribuído pela cultura digital.

Mas essa mudança produz uma consequência importante.

Se o problema está espalhado, nossa resposta também precisa estar.

Uma palestra não resolve. Um pai não resolve. Uma escola não resolve. Um grupo de homens não resolve. Uma política de plataforma não resolve.

Mas todos esses lugares podem oferecer alguma coisa: linguagem, vínculo, limite, pertencimento, escuta, responsabilização, experiência e outras referências de masculinidade.

Talvez seja essa a disputa mais importante.

Não apenas afastar meninos de homens que lhes oferecem ressentimento, mas aproximá-los de experiências nas quais eles não precisem do ressentimento para pertencer.

A machosfera não inventou a dor dos meninos. Também não inventou a Caixa dos Homens. Mas encontrou formas eficientes de conversar com algumas dessas dores usando regras que conhecemos há muito tempo.

Se queremos construir algo diferente, não basta dizer aos meninos que aquelas respostas estão erradas.

Precisamos chegar às perguntas antes.

E estar perto o suficiente para que eles descubram que existem muitas outras maneiras de ser homem.

Referências

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