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a última fronteira da carteirinha de homem

Ouvi Mily Lacombe dizer que o futebol talvez seja a última fronteira onde o machismo vai morrer no Brasil.

A imagem é forte porque desloca a conversa.

Não se trata apenas de perguntar se o futebol é machista. Trata-se de olhar para o futebol como um dos últimos espaços onde muitos homens ainda se protegem entre si.

Não acho que o futebol seja, por si só, o problema. Seria fácil demais colocar nele uma culpa que é muito maior do que o esporte. O futebol não inventou o machismo, não inventou a violência, não inventou a homofobia, não inventou a misoginia, nem a necessidade masculina de provar força, suportar dor, competir por pertencimento e esconder fragilidade.

Mas talvez o futebol seja um dos lugares onde tudo isso encontrou uma casa: grande, barulhenta, afetiva, popular, cheia de histórias familiares, paixões legítimas e contradições profundas. Por isso mexer no futebol é tão difícil. Não se trata apenas de um esporte, mas de um dos espaços onde muitos homens aprenderam a pertencer, a sofrer, a amar e a provar masculinidade diante de outros homens.

No estádio, muita coisa é permitida.

Homens que não choram em casa choram pelo time. Homens que têm dificuldade de abraçar amigos abraçam desconhecidos na arquibancada. Homens que não sabem dizer “estou triste” conseguem narrar, em detalhes, a dor de uma eliminação, a raiva de um gol perdido, a angústia de um pênalti, a injustiça de uma arbitragem, a esperança renovada por uma contratação.

Homens que talvez nunca tenham dito “eu te amo” para um amigo conseguem cantar amor eterno por um clube.

Essa é uma das contradições mais importantes do futebol: ele autoriza emoções masculinas sem necessariamente humanizar os homens por inteiro. O choro é permitido, desde que seja pelo time. O abraço é permitido, desde que aconteça no gol. O sofrimento é permitido, desde que apareça como fidelidade. A vulnerabilidade é permitida, desde que continue parecendo força.

Você sofre porque é torcedor de verdade. Você chora porque ama o clube. Você aguenta porque é forte. Você permanece porque é fiel. Você suporta porque pertence.

A dor vira prova de entrada.

Em muitos espaços masculinos, a carteirinha de homem precisa ser renovada todos os dias. No futebol, isso aparece quase como ritual. É preciso torcer certo, sofrer certo, vibrar certo, odiar certo, calar certo, xingar certo, aguentar certo. Há códigos que não precisam ser escritos porque já foram ensinados no corpo.

O menino aprende cedo.

Aprende que futebol é coisa de menino. Aprende que quem joga mal “joga como menina”. Aprende que errar é motivo de humilhação. Aprende que não gostar de futebol pode colocá-lo num não lugar entre outros meninos. Aprende que a rua, a quadra, o campo, o videogame, a arquibancada e a resenha são territórios onde se mede alguma coisa sobre ser homem.

E as meninas também aprendem.

Muitas aprendem a não participar. Aprendem que aquele espaço não foi feito para elas. Aprendem que precisam pedir licença para jogar, para torcer, para comentar, para apitar, para narrar, para ocupar. Quando entram, muitas vezes entram como exceção. Quando erram, o erro não é apenas delas: vira prova contra todas.

Por isso o machismo no futebol não aparece só na frase absurda de um jogador sobre uma árbitra mulher. Não aparece só no xingamento homofóbico da torcida. Não aparece só na piada do vestiário. Não aparece só na resistência ao futebol feminino. Ele aparece também na distribuição cotidiana do espaço: quem pode ocupar naturalmente, quem precisa provar competência o tempo todo, quem pode errar sem representar um grupo inteiro, quem tem referência, quem é protegido pelo ambiente e quem é tratado como invasor.

O machismo no futebol é, muitas vezes, miúdo. Passa pela linguagem, pelo riso, pelo silêncio, pelo jeito de organizar a brincadeira, pela regra inventada para “deixar as meninas participarem”, pela naturalidade com que se entrega uma bola ao menino e outro destino à menina, pela forma como adultos olham para crianças antes mesmo que elas digam o que desejam.

Mas há algo ainda mais delicado.

O futebol é um dos poucos lugares onde muitos homens encontraram uma linguagem para o próprio sofrimento. Isso não é pouco. Muitos homens falam muito, mas falam pouco de si. Falam de trabalho, resultado, dinheiro, política, desempenho, futebol. Mas quando a conversa se aproxima da vergonha, do medo, da solidão, da frustração, da insuficiência ou do cuidado, algo trava.

O futebol, então, aparece como uma espécie de idioma intermediário.

Talvez um homem não consiga dizer: “estou com medo de fracassar”. Mas consegue dizer: “aquele time amarelou na hora decisiva”.

Talvez não consiga dizer: “eu me sinto abandonado”. Mas consegue dizer: “a torcida nunca abandona”.

Talvez não consiga dizer: “eu não sei lidar com a minha raiva”. Mas consegue dizer: “depois daquela derrota, eu perdi a cabeça”.

Talvez não consiga dizer: “eu preciso de ajuda”. Mas consegue dizer: “meu time precisa se reorganizar”.

A pergunta é o que fazemos com essa linguagem. Porque ela pode ser esconderijo, mas também pode ser ponte. Pode manter os homens presos a um repertório estreito de emoção — raiva, euforia, rivalidade, sacrifício, honra, vergonha — ou pode abrir uma fresta para conversas mais difíceis.

O problema não é o homem amar o futebol. O problema é quando o futebol vira o único lugar onde esse homem consegue amar sem se sentir ameaçado. O único lugar onde consegue chorar sem se sentir fraco. O único lugar onde consegue tocar outro homem sem sentir vergonha. O único lugar onde consegue dizer “nós” sem precisar falar de vínculo, amizade, cuidado ou dependência.

Há uma beleza nisso. E há um perigo.

A beleza está no pertencimento. No pai que leva a filha ao estádio. No avô que conta uma final antiga como quem entrega uma herança. No amigo que atravessa a cidade para assistir a um jogo sem importância nenhuma, porque o importante é estar junto. Na criança que descobre uma linguagem comum com alguém que ama.

O perigo está quando esse pertencimento só funciona protegendo um clube fechado. Um clube onde mulheres são toleradas desde que não apontem o que veem. Onde homens gays são aceitos desde que não desorganizem o código. Onde meninos sensíveis precisam endurecer para sobreviver. Onde o sofrimento vira medalha. Onde a frustração vira agressividade. Onde a derrota de um time, somada à bebida, à posse e à incapacidade de nomear sentimentos, pode aumentar o risco dentro de casa.

Não é o futebol que causa a violência contra mulheres. Dizer isso seria simplificar demais.

Mas uma masculinidade que não aprendeu a elaborar frustração pode transformar qualquer derrota em autorização para descontar em alguém. E, numa cultura em que muitos homens ainda aprendem que a mulher “é sua”, que a casa “é sua”, que o silêncio emocional “é força” e que pedir ajuda “é fraqueza”, o jogo nunca termina quando o juiz apita.

Ele continua na volta para casa.

Por isso, quando se fala em transformar o futebol, não se trata de tirar a paixão dos homens. Não se trata de higienizar a arquibancada, proibir o grito, conter o corpo, diminuir a intensidade ou desqualificar o amor pelo clube. Trata-se de ampliar o que pode caber ali.

Que caiba o choro, mas também a conversa. Que caiba o abraço, mas também o cuidado. Que caiba a derrota, mas não a violência. Que caiba a rivalidade, mas não a desumanização. Que caibam mulheres, não como visitantes, mas como pertencentes. Que caibam meninos que gostam de futebol e meninos que não gostam. Que caibam homens que possam torcer sem precisar provar masculinidade o tempo inteiro.

Se o futebol é uma escola de masculinidade, talvez ele também possa ser uma escola de desaprendizagem.

Talvez a conversa com muitos homens e meninos não precise começar com uma acusação. Talvez comece com uma pergunta simples:

qual foi o jogo que te fez chorar?

E depois, com cuidado, outra:

por que é tão difícil chorar fora dele?

A última fronteira não é o futebol em si. A última fronteira talvez seja esse pacto silencioso entre homens que permite sentir, desde que ninguém chame aquilo de fragilidade; que permite amar, desde que o amor esteja vestido com a camisa certa; que permite sofrer, desde que o sofrimento continue parecendo força.

A boa notícia é que fronteiras também se movem.

E se há um lugar no Brasil onde milhões de meninos aprendem alguma coisa sobre ser homem, talvez seja justamente ali que a gente precise começar a mudar as regras do jogo.

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