O cuidado virou centro da conversa sobre masculinidades
Voltei do Rio com a sensação de que algo importante está mudando na forma como falamos sobre masculinidades.
Não porque tenham surgido respostas definitivas.
Mas porque, durante alguns dias, uma conversa que durante muito tempo esteve nas margens ocupou o centro do debate.
E talvez o mais interessante seja que essa conversa não era exatamente sobre homens.
Era sobre cuidado.
No fim de maio, o Rio de Janeiro recebeu a programação do MenCare ChangeMaker Summit, Rio 2026.
Dentro dessa agenda, participei do Boys & Men Festival, aberto ao público, do Thought Leader Forum, encontro fechado para convidados, e da reunião de lançamento da Coalizão Homens Aliados, iniciativa construída pelo Instituto PdH | PapodeHomem em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
Durante alguns dias, lideranças, pesquisadores, ativistas, educadores, comunicadores, profissionais da saúde, representantes de organizações da sociedade civil, empresas e formuladores de políticas públicas de mais de quarenta países se reuniram para conversar sobre um tema que, durante muito tempo, permaneceu à margem das discussões públicas.
Mas talvez essa definição ainda seja insuficiente.
Porque o que aconteceu no Rio não foi exatamente uma conversa sobre homens.
Foi uma conversa sobre cuidado.
E essa diferença importa.
O cuidado como centro
Durante muito tempo, discussões sobre masculinidades ficaram restritas a perguntas como:
O que significa ser homem?
Existe uma nova masculinidade?
Como os homens deveriam se comportar?
Essas perguntas continuam relevantes.
Mas o que apareceu com força no encontro foi outra questão:
Como homens e meninos aprendem a cuidar?
Cuidar de si.
Cuidar dos filhos.
Cuidar das relações.
Cuidar da comunidade.
Cuidar sem associar cuidado à fraqueza.
Cuidar sem sentir que estão abrindo mão da própria identidade.
Mais do que discutir conceitos, o evento buscou olhar para práticas concretas.
Paternidade.
Saúde.
Educação.
Violência de gênero.
Saúde mental.
Políticas públicas.
Ambientes de trabalho.
Tudo atravessado por uma mesma pergunta:
Como construir formas de masculinidade mais conectadas ao cuidado?
Meninos antes da crise
Um dos movimentos mais importantes do encontro foi deslocar a conversa dos homens adultos para os meninos.
Durante muito tempo, a discussão pública costuma procurar os homens quando o problema já apareceu.
Quando a violência já aconteceu.
Quando o sofrimento já se instalou.
Quando o isolamento já virou padrão.
Quando o silêncio já virou dureza.
Mas o que apareceu no Rio foi uma tentativa de olhar para antes.
Antes da crise.
Antes da repetição.
Antes de o sofrimento ganhar forma.
O documentário Meninos: Sonhando os Homens do Futuro, apresentado durante o festival e debatido também no fórum, ajuda a sustentar essa mudança de perspectiva.
A pergunta deixa de ser apenas como corrigir homens adultos.
Passa a ser:
Que tipo de experiência emocional estamos oferecendo aos meninos?
Que linguagens eles recebem para falar sobre medo, afeto, amizade, cuidado e pertencimento?
Que modelos de masculinidade encontram ao crescer?
Essa talvez seja uma das conversas mais promissoras do campo hoje.
Porque prevenção costuma ser menos visível do que correção.
Mas seus efeitos são muito mais profundos.
Os dados apresentados em torno do Projeto Meninos reforçam essa urgência.
Pesquisas realizadas com milhares de adolescentes mostram que muitos meninos crescem sem referências positivas de masculinidade e sem a certeza de que são amados pelos próprios pais.
Talvez por isso a pergunta mais importante não seja apenas como ajudar homens adultos.
Talvez seja como cuidar dos meninos antes que a crise aconteça.
Paternidade além da presença
Outro eixo forte foi a paternidade.
Mas não uma visão romantizada da figura paterna.
A discussão apareceu conectada a tempo, trabalho, licenças parentais, cultura organizacional e políticas públicas.
Isso importa porque a conversa sobre pais presentes costuma ser simplificada.
Como se tudo dependesse apenas de escolha individual.
Como se bastasse boa vontade.
Mas presença também depende de estrutura.
Depende de condições concretas para cuidar.
Depende de organizações que não tratem o cuidado como problema.
Depende de políticas que reconheçam que homens também precisam de tempo para exercer a parentalidade.
Depende de uma cultura que permita aos homens construir valor para além da função exclusiva de provedores.
Talvez uma das contribuições mais importantes do encontro tenha sido justamente essa:
Paternidade não é apenas uma questão privada.
É uma questão social.
Masculinidades, saúde e conexão
Outra trilha importante passou pela saúde dos homens.
Não apenas saúde física.
Mas saúde emocional.
Solidão.
Pertencimento.
Conexão.
Saúde mental.
A sensação recorrente era de que muitos dos desafios enfrentados pelos homens não podem ser compreendidos apenas como questões individuais.
Existe uma dimensão relacional.
Cultural.
Coletiva.
Muitos homens aprenderam a funcionar.
Mas não necessariamente aprenderam a pedir ajuda.
Aprenderam a resolver.
Mas nem sempre aprenderam a compartilhar.
Aprenderam a sustentar.
Mas nem sempre aprenderam a se apoiar em alguém.
Nesse sentido, a conversa sobre masculinidades parece cada vez menos ligada à identidade e cada vez mais ligada à qualidade dos vínculos que homens conseguem construir ao longo da vida.
Quando a conversa chega às empresas
Uma das discussões mais interessantes do encontro foi perceber que a agenda das masculinidades não pode permanecer restrita aos espaços de educação, saúde, pesquisa ou grupos reflexivos.
Ela também precisa chegar às empresas.
Durante o fórum foi apresentada a Coalizão Homens Aliados, iniciativa construída pelo Instituto PdH | PapodeHomem em parceria com o Pacto Global da ONU – Rede Brasil.
A proposta parte de uma ideia simples, mas potente: homens que ocupam posições de liderança têm responsabilidade sobre as culturas organizacionais que ajudam a construir.
A Coalizão reúne CEOs, presidentes, sócios, vice-presidentes e diretores comprometidos em utilizar sua influência para acelerar a promoção da equidade de gênero nas organizações, em alinhamento aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e aos compromissos do Movimento Elas Lideram 2030.
Mais do que sensibilização, a iniciativa propõe responsabilização.
A pergunta deixa de ser apenas como homens podem apoiar a equidade de gênero em nível individual.
Passa a ser:
Como lideranças masculinas podem utilizar seu poder institucional para promover mudanças concretas?
Essa discussão apareceu de forma recorrente ao longo do encontro.
Porque falar sobre masculinidades sem falar sobre liderança, tomada de decisão, ambientes de trabalho e distribuição de poder produz mudanças limitadas.
O cuidado precisa chegar às estruturas.
E isso inclui as empresas.
Talvez uma das mensagens mais importantes do Rio tenha sido justamente essa:
Não basta transformar conversas.
É preciso transformar sistemas.
O que ficou do Rio
Voltei do Rio com mais perguntas do que respostas.
E talvez isso seja um bom sinal.
O que mais me marcou não foi encontrar uma definição melhor sobre o que é ser homem.
Foi perceber que a conversa mais importante talvez esteja em outro lugar.
Na construção de condições para que homens e meninos possam cuidar.
De si.
Dos outros.
Das relações.
Das comunidades.
Porque cuidado não é um tema secundário.
Não é um complemento.
Não é um assunto privado.
Cuidado é infraestrutura humana.
E talvez uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo seja justamente essa:
Criar uma cultura em que homens e meninos possam aprender a cuidar antes que o silêncio, a violência ou a solidão se tornem seu único idioma.