depois que a câmera foi embora
a câmera foi embora, mas a vida ficou.
ficaram os pratos.
os horários da escola.
os brinquedos no chão.
as perguntas das crianças.
o café da manhã.
a roupa para lavar.
a saudade atravessando a casa sem pedir licença.
quando participei do segundo episódio de Queer Eye Brasil, muita coisa apareceu na tela.
apareceu a casa.
apareceram os objetos.
apareceram minhas roupas, minha rotina, meu jeito de tentar me organizar depois de uma perda.
apareceu também um pedaço do meu luto.
mas o luto inteiro não cabe em um episódio.
nenhuma vida cabe.
o que foi ao ar era um recorte.
bonito, cuidadoso, importante.
mas ainda assim: um recorte.
porque quando a câmera vai embora, não existe trilha sonora.
não existe edição.
não existe antes e depois tão organizado.
existe o dia seguinte.
e o dia seguinte, muitas vezes, é onde a vida realmente pergunta se a gente consegue continuar.
depois do programa, eu continuei sendo pai.
continuei acordando cedo.
continuei tentando responder perguntas para as quais eu mesmo não tinha resposta.
continuei procurando um jeito de estar inteiro para meus filhos enquanto uma parte de mim ainda tentava entender o que tinha acontecido.
havia uma dimensão pública naquela exposição.
pessoas me escreveram.
homens me escreveram.
pais, viúvos, filhos, pessoas que tinham perdido alguém ou que estavam tentando cuidar de alguém.
muitos diziam: eu chorei vendo sua história.
outros diziam: eu nunca tinha pensado que um homem também podia precisar de cuidado.
talvez esse tenha sido um dos pontos mais importantes do episódio.
não a transformação da casa.
não a roupa.
não a aparência.
mas a pergunta:
quem cuida de quem cuida?
por muito tempo, eu achei que meu papel era sustentar tudo.
cuidar das crianças.
cuidar da rotina.
cuidar da memória.
cuidar para que a casa não desabasse.
cuidar para que ninguém sofresse mais do que já sofria.
e, no meio disso, eu fui deixando meu próprio corpo para depois.
minha tristeza para depois.
meu cansaço para depois.
minha necessidade de amparo para depois.
talvez muitos homens conheçam esse lugar.
o lugar de funcionar.
de seguir.
de resolver.
de parecer forte enquanto alguma coisa por dentro já não sabe mais onde apoiar.
o episódio me deu uma experiência rara: por alguns dias, eu não precisei conduzir tudo.
eu fui conduzido.
fui olhado.
fui escutado.
fui cuidado.
e isso não resolveu o luto.
nada resolve o luto.
mas abriu uma fresta.
uma fresta por onde entrou a possibilidade de admitir que eu também precisava de gente.
depois que a câmera foi embora, essa pergunta continuou comigo.
ela apareceu na escrita.
apareceu nas conversas.
apareceu nos grupos de homens.
apareceu quando comecei a perceber que minha história não era só minha.
ela tocava um ponto maior: a forma como muitos homens atravessam perdas, crises, responsabilidades e afetos quase sempre sozinhos.
hoje, parte do meu trabalho nasce daí.
da tentativa de transformar uma experiência vivida em espaço de escuta.
em pergunta.
em conversa.
em cuidado possível.
o programa terminou.
a vida continuou.
e talvez seja exatamente aí, depois que a câmera vai embora, que começa a parte mais difícil e mais verdadeira da transformação.