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o direito de um homem ser cuidado

muitos homens aprendem cedo a cuidar de um jeito incompleto.

aprendem a proteger.

a resolver.

a pagar a conta.

a levar no médico.

a buscar na escola.

a trabalhar mais.

a não deixar faltar.

mas nem sempre aprendem a serem cuidados.

e isso parece pequeno.

não é.

porque um homem que só aprende a sustentar pode passar a vida inteira sem saber onde apoiar a própria dor.

quando participei do segundo episódio de Queer Eye Brasil, uma parte importante da experiência foi essa: por alguns dias, eu não precisei conduzir tudo.

alguém olhou para mim.

para minha casa.

para minha roupa.

para minha rotina.

mas também para aquilo que eu não estava conseguindo nomear.

eu vinha de anos tentando cuidar.

cuidar dos meus filhos.

cuidar da memória da Mi.

cuidar para que a casa continuasse viva.

cuidar para que a dor das crianças encontrasse algum contorno.

cuidar para que a vida seguisse.

e, nesse movimento, eu tinha ido ficando para depois.

o cuidado que eu oferecia não voltava para mim.

não porque ninguém quisesse.

mas porque eu também não sabia receber.

existe uma dureza silenciosa no jeito como muitos homens atravessam a vida.

uma ideia de que precisar de ajuda é falhar.

de que descansar é abandonar.

de que chorar é perder o controle.

de que ser cuidado diminui.

não diminui.

ser cuidado humaniza.

talvez uma das perguntas mais difíceis para muitos homens seja:

o que eu faço quando não dou conta?

alguns respondem trabalhando.

outros se afastando.

outros ficando irritados.

outros tentando controlar tudo.

outros dizendo que está tudo bem.

mesmo quando não está.

no episódio, quando os Fabulosos chegaram, eles não me entregaram uma solução.

eles me ofereceram presença.

e presença, em alguns momentos, é uma forma profunda de cuidado.

não era sobre apagar o luto.

não era sobre superar.

não era sobre virar outra pessoa.

era sobre lembrar que eu ainda estava ali.

que meu corpo ainda precisava de atenção.

que minha casa podia me acolher.

que minha imagem também falava comigo.

que meu cansaço não precisava ser escondido como defeito.

depois da exibição, o texto de Alexandre Coimbra Amaral sobre o episódio tocou nesse ponto com muita precisão: a dificuldade dos homens de se perceberem como dignos de cuidado.

essa frase ficou comigo.

digno de cuidado.

porque muitos homens até aceitam cuidar.

mas não se autorizam a ocupar o outro lado da cena.

o lado de quem precisa.

de quem recebe.

de quem não sabe.

de quem pede.

de quem é amparado.

esse tema atravessa meu trabalho hoje.

aparece nas conversas sobre luto masculino.

aparece nas conversas sobre paternidade.

aparece nos grupos de homens.

aparece nas organizações, quando homens confundem liderança com invulnerabilidade e presença com controle.

o cuidado não é um gesto menor.

é uma linguagem.

uma prática.

uma forma de vínculo.

e também uma forma de reparação.

quando um homem aprende a ser cuidado, talvez ele também aprenda a cuidar de outro jeito.

menos como quem carrega tudo sozinho.

mais como quem reconhece que a vida não foi feita para ser atravessada sem apoio.

o direito de um homem ser cuidado não tira dele responsabilidade.

devolve humanidade.

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