artigo · paternidade e cuidado

Os homens querem cuidar. Então por que ainda cuidam tão pouco?

Durante muito tempo, quando falávamos sobre homens e cuidado, a pergunta parecia simples:

Por que os homens não cuidam?

A resposta também parecia relativamente conhecida. Porque foram ensinados a prover, não a cuidar. Porque o trabalho doméstico e o cuidado dos filhos foram historicamente atribuídos às mulheres. Porque a masculinidade tradicional construiu o homem como alguém que sai de casa para trabalhar enquanto uma mulher permanece responsável pela vida que acontece dentro dela.

Essa história ainda existe, mas talvez já não seja suficiente para compreender o que está acontecendo.

Duas pesquisas publicadas em 2026 ajudam a revelar uma realidade mais contraditória. De um lado, muitos homens dizem querer participar mais do cuidado e estar mais presentes na vida dos filhos. De outro, continuam presos a expectativas muito antigas sobre o que significa ser pai e, principalmente, sobre o que significa ser homem.

Talvez a pergunta, portanto, precise mudar.

Não apenas:

Por que os homens não cuidam?

Mas:

O que acontece quando um homem quer cuidar e continua vivendo em um mundo que mede seu valor pela capacidade de prover?

A nova edição do State of the World's Fathers, publicada pela Equimundo, ouviu cerca de 8.000 mães, pais e pessoas cuidadoras em 16 países. Os dados mostram que os homens estão mais envolvidos no cuidado do que gerações anteriores e que muitos desejam uma divisão mais igualitária das responsabilidades familiares. Ao mesmo tempo, revelam uma distância enorme entre a vida que muitos pais gostariam de viver e aquela que conseguem construir.

Apenas um em cada seis pais e mães entrevistados afirma ter tempo suficiente para cuidar da família. Mais de quatro em cada cinco dizem que seus empregadores não permitem formas flexíveis de trabalho. Metade afirma que os custos relacionados ao cuidado consomem pelo menos metade da renda familiar.

Quando converso sobre cuidado, costumo insistir em uma ideia:

Cuidar não depende apenas da vontade individual. Depende também das estruturas que organizam nosso tempo, nosso trabalho e nossas relações.

Um pai pode querer acompanhar uma consulta médica. Pode querer buscar o filho na escola. Pode querer ficar em casa diante de uma febre, participar de uma reunião, preparar uma refeição ou simplesmente ter tempo para estar junto.

Mas entre querer e conseguir há um mundo inteiro: jornadas de trabalho, deslocamentos, medo de perder o emprego, reuniões marcadas no final do dia e culturas organizacionais que celebram publicamente a paternidade, mas continuam esperando disponibilidade total de quem trabalha.

E há também algo mais difícil de enxergar.

O que carregamos dentro de nós.

O homem que cuida e o homem que precisa dar conta

Quando minha esposa morreu, eu me tornei pai solo da Maria Clara e do Francisco.

O cuidado deixou de ser uma ideia sobre a qual eu poderia refletir. Virou a matéria dos meus dias.

Comida. Escola. Roupa. Médico. Cabelo. Medo. Horário. Abraço. Supermercado. Trabalho. Uma pergunta no meio da noite. Outra no caminho para a escola. A vida acontecendo enquanto a gente tenta dar conta dela.

Não havia a possibilidade de dizer que eu "ajudava".

E talvez essa seja uma das palavras que mais revelam o lugar que ainda reservamos aos homens dentro de casa.

Um pai que cuida dos próprios filhos não ajuda.

Um homem que prepara a comida, acompanha uma consulta ou sabe o tamanho da roupa das crianças não está prestando um favor a uma mulher.

Está cuidando.

Ainda assim, percebo, inclusive em mim, como algumas aprendizagens antigas permanecem.

A sensação de precisar resolver. De não poder falhar. De que pedir ajuda talvez seja um sinal de incapacidade. De que cuidar da família significa, antes de qualquer coisa, garantir que nada falte.

A nova pesquisa da Equimundo ajuda a dar números a essa contradição.

Setenta por cento dos pais entrevistados consideram o provimento financeiro um papel central do pai. Apenas 35% dizem o mesmo sobre o cuidado não remunerado e o trabalho doméstico. E 58% dos homens afirmam que não se sentem suficientemente homens quando não conseguem prover financeiramente para a família.

Talvez este seja um dos nós da nossa conversa sobre paternidade.

O homem contemporâneo recebe um novo convite:

Esteja presente. Cuide. Participe.

Mas a velha cobrança continua intacta:

Dê conta. Sustente. Não falhe.

E então pedimos que ele ocupe novos lugares sem necessariamente permitir que abandone os antigos.

Querer cuidar não significa ter aprendido a cuidar

Há outro desconforto importante nos dados.

Seria fácil construir uma narrativa otimista dizendo que os homens já querem cuidar e que agora precisamos apenas mudar empresas, governos e políticas públicas.

Não é tão simples.

Quarenta por cento dos homens ouvidos pela Equimundo concordam que meninos não deveriam aprender atividades como cozinhar, limpar ou cuidar dos irmãos. Mais de um terço dos pais considera que trocar fraldas, dar banho e alimentar crianças são responsabilidades das mães. E, em quase todos os países pesquisados, pais mais jovens apresentam atitudes menos igualitárias em relação ao cuidado do que homens de outras gerações.

Existe, portanto, uma contradição que não deveríamos tentar esconder.

Muitos homens querem estar mais próximos dos filhos.

E muitos homens ainda acreditam que cuidar é trabalho de mulher.

As duas coisas podem existir na mesma pessoa.

Talvez todos nós que trabalhamos com homens em espaços de conversa e reflexão conheçamos algo dessa contradição.

O homem que diz querer uma relação mais próxima com o filho, mas não sabe em que sala ele estuda.

O pai que deseja participar, mas espera que alguém lhe diga o que precisa ser feito.

O homem que troca fraldas, prepara comida e leva ao médico, mas chama tudo isso de "ajudar".

O pai presente nas brincadeiras, mas ausente da carga mental necessária para que a vida cotidiana funcione.

Não digo isso para produzir uma nova forma de culpa masculina.

Culpa, sozinha, raramente ensina alguém a cuidar.

Mas também não podemos transformar os homens em vítimas passivas de estruturas que os impedem de fazer aquilo que supostamente já gostariam de fazer.

Estruturas precisam mudar.

Os homens também.

Medir o cuidado talvez seja uma forma de torná-lo visível

No Brasil, o Relatório das Paternidades Brasileiras, publicado pelo Instituto Promundo, propõe uma nova maneira de olhar para essa realidade: o Índice de Desenvolvimento das Paternidades, o IDP.

O índice reúne quatro dimensões: a desigualdade entre homens e mulheres no trabalho doméstico e no cuidado não remunerado, os nascimentos sem reconhecimento paterno, a participação dos pais no pré-natal e a proporção de domicílios com mulher responsável, utilizada pelo estudo como um indicador indireto de aspectos da corresponsabilidade no domicílio.

Nenhum índice é capaz de medir sozinho algo tão complexo quanto ser pai.

Não mede o abraço.

Não mede a conversa antes de dormir.

Não mede se um homem sabe o que assusta seu filho.

Mas pode tornar visíveis desigualdades que, sem números, correm o risco de permanecer apenas no campo das boas intenções.

E há uma diferença enorme entre intenção e prática.

O cuidado não acontece no discurso.

Acontece no tempo que oferecemos, na responsabilidade que assumimos sem precisar que alguém peça, na consulta que sabemos que existe, na comida que precisa ser preparada, na roupa que deixou de servir, na escola, no medo, na febre das três da manhã.

Na presença quando não há nada para resolver.

Talvez tenhamos ensinado os homens a amar sem ensinar a cuidar

Não tenho dúvida de que muitos pais amam profundamente seus filhos.

Talvez essa nunca tenha sido a questão.

A questão é que amar e cuidar não são exatamente a mesma coisa.

O amor pode ser um sentimento.

O cuidado exige tempo, atenção, trabalho, repetição e responsabilidade.

Exige fazer algumas coisas que ninguém verá.

E talvez tenhamos passado muitas gerações permitindo aos homens amar seus filhos sem exigir deles a mesma responsabilidade cotidiana que sempre exigimos das mulheres.

O pai podia amar.

A mãe precisava lembrar a vacina.

O pai podia brincar.

A mãe precisava saber o horário da escola.

O pai podia ser admirado por preparar um jantar.

A mãe era responsabilizada caso não houvesse comida.

As coisas mudaram.

Mas talvez ainda não tenham mudado tanto quanto gostamos de acreditar.

Não basta ensinar os homens a cuidar dentro de um mundo organizado para que eles não cuidem

Há, portanto, duas transformações que precisam acontecer ao mesmo tempo.

Precisamos conversar com homens sobre masculinidade, responsabilidade, privilégio, vínculo, divisão do trabalho e cuidado.

E precisamos mudar os lugares onde esses homens vivem: empresas, escolas, serviços de saúde, políticas públicas e famílias.

Não adianta dizer a um pai que ele deve estar presente e tratá-lo como menos comprometido quando sai mais cedo para buscar o filho.

Não adianta defender a corresponsabilidade e continuar desenhando serviços de saúde que praticamente não enxergam o pai.

O próprio relatório brasileiro chama atenção para a invisibilidade dos homens em muitos serviços de saúde, assistência e educação e propõe superar a ideia do "pai que ajuda" em favor de uma paternidade efetivamente responsável pelo cuidado.

Também não basta transformar as estruturas se continuarmos educando meninos para acreditar que ternura, dependência, cuidado e vulnerabilidade pertencem a outra pessoa.

Talvez o futuro das masculinidades dependa justamente desse encontro.

Entre responsabilidade individual e mudança estrutural.

Entre o homem que precisa rever o que aprendeu e o mundo que precisa oferecer condições para que ele viva de outra forma.

O cuidado não é a alternativa à força

Durante muito tempo, ensinamos aos homens que seu valor estava na capacidade de serem fortes.

Talvez tenhamos errado menos ao falar da força do que ao definir o que ela significava.

Força virou aguentar sozinho.

Não pedir ajuda.

Não demonstrar medo.

Prover.

Proteger.

Controlar.

Dar conta.

Mas há muita força em cuidar.

Na repetição dos pequenos gestos.

Na presença.

Em reconhecer que não sabemos.

Em dividir responsabilidade.

Em permanecer numa conversa difícil sem fugir dela.

Em pedir ajuda antes de desabar.

Em criar um menino sem ensiná-lo que tudo o que sente precisa ser escondido.

Não acho que precisemos convencer os homens a abandonar a força.

Precisamos ampliar o seu significado — e talvez sair da caixa estreita que ainda define o que um homem deve ser.

Porque talvez um dos trabalhos mais urgentes que temos pela frente seja este:

Formar homens capazes não apenas de proteger aquilo que amam, mas de cuidar daquilo que amam.

E garantir que tenham tempo, espaço e condições para fazer isso.

Fontes: Equimundo — State of the World's Fathers 2026: Stretched to the Breaking Point; Instituto Promundo — Relatório das Paternidades Brasileiras: Índice de Desenvolvimento das Paternidades (IDP).

publicidade

continuar lendo