A 10ª edição do evento PAI: paternidades em movimento
Sete anos depois de chegar ao PAI procurando referências para seguir sendo pai, voltei à sua décima edição para ajudar a construir um lugar onde outros homens possam se encontrar.
No domingo, 30 de agosto, realizamos, na Pinacoteca de São Paulo, a décima edição do PAI, o encontro do Instituto Papo de Homem dedicado às paternidades, ao cuidado e às transformações que podem acontecer quando homens são convocados a ocupar esse lugar de outra maneira.
Escrever essa frase ainda me causa alguma estranheza. Talvez porque seja difícil explicar o tamanho do que aconteceu ali dizendo apenas que fizemos um evento sobre paternidades.
Nos dias que antecederam esta edição, reconstruí a história do PAI. Voltei às programações, aos registros, às pessoas que passaram por seus palcos e aos assuntos que foram aparecendo e se transformando ao longo do tempo.
A plataforma nasceu em 2016 e teve sua primeira edição presencial em 2017. De lá para cá, foram dez edições — seis presenciais e quatro online —, mais de 3,5 mil inscrições e mais de 150 palestrantes, pesquisadores, artistas, comunicadores e convidados.
Os números ajudam a enxergar a trajetória, mas não dão conta do que talvez seja mais importante: as conversas que continuaram depois de cada edição, os vídeos e conteúdos que circularam, as ideias levadas para dentro de casas, escolas, empresas, organizações e projetos. Tampouco medem o que acontece quando alguém encontra, pela primeira vez, uma referência que não tinha antes.
Eu sei alguma coisa sobre isso porque um dia essa pessoa fui eu.
Em 2019, participei do PAI na Red Bull Station, na conversa “Gestação, parto e puerpério: qual o papel do homem?”, ao lado da minha amiga Thaís Vilarinho e de Tiago Koch, do Homem Paterno.
Fazia pouco tempo que eu tinha perdido minha esposa. Era pai solo de duas crianças pequenas e tentava entender como continuar. Tentava também descobrir que homem eu seria depois de tudo aquilo.
Naquele momento, eu procurava referências masculinas e conseguia contá-las nos dedos.
Lembro da sensação de sentar naquele palco e olhar para a plateia. Havia um mar de homens diante de mim, dispostos a passar um sábado inteiro falando sobre filhos, cuidado, relações, educação, sexualidade, sentimentos e presença.
Olhei para aquilo e pensei:
“Cara, eu quero ser amigo desses caras todos.”
Eu precisava encontrar outros homens. Queria saber como estavam cuidando, criando seus filhos, tentando fazer diferente, lidando com medo, amor, exaustão e responsabilidade. Procurava referências para um lugar que ainda não sabia ocupar.
Essa experiência toca numa das ideias que deram origem ao PAI: a paternidade pode ser uma importante porta de entrada para a transformação dos homens.
Tornar-se pai coloca muitos de nós diante de perguntas para as quais fomos pouco preparados. Como cuidar? Como estar presente? Como demonstrar afeto? Como dividir responsabilidades? Como reconhecer limites? Como não reproduzir automaticamente aquilo que recebemos? Que referências de masculinidade queremos oferecer aos nossos filhos e filhas?
O PAI nasceu também para enfrentar uma experiência frequente entre homens: a solidão.
Criar espaços onde pais possam encontrar outros pais. Onde dúvidas normalmente restritas ao silêncio de uma casa possam virar conversa. Onde homens possam falar de medo, amor, cansaço, erro, responsabilidade e presença.
Ao longo desses dez anos, essa conversa ficou maior. Passou a incorporar raça, classe, território, infância, adolescência, equidade, saúde, educação, violência, políticas públicas, cultura, empresas e masculinidades.
Foi ficando evidente que falar sobre paternidade não significa falar apenas sobre o que acontece dentro de uma família. Significa também discutir o tipo de sociedade que construímos quando homens são convocados a cuidar.
Por isso, o tema da décima edição foi Paternidades em movimento, organizado a partir de três ideias: celebrar trajetórias, conectar soluções e fortalecer transformações.
Realizá-la na Pinacoteca dizia algo por si só.
Um dos principais museus do país, num domingo, com seu auditório ocupado durante todo o dia por conversas sobre paternidades, cuidado e masculinidades. Homens falando de presença e medo. Pessoas discutindo infância, adolescência, escola, violência, trabalho e políticas públicas. Arte dividindo espaço com dados, pesquisas e experiências de vida.
Começamos olhando para os avanços das paternidades no Brasil e para o que ainda precisa mudar. Falamos sobre gestação, parto, puerpério e primeira infância. Tiago Koch, que atravessa também a história do PAI, estava novamente conosco.
À tarde, Vitor Albuquerque apresentou Sem Registro — Uma Performance Paterna, com direção de Chia Rodriguez. Por algum tempo, aquele espaço deixou de funcionar como auditório. Corpo, memória, presença e ausência ocuparam o lugar que antes estava organizado para mesas e apresentações.
Algumas perguntas não cabem apenas em dados ou conceitos. Precisam passar também pelo corpo.
Depois vieram as adolescências, as relações entre meninos e masculinidades, a escola, as redes sociais e as referências oferecidas a quem está crescendo. Carolina Delboni apresentou “Meninos não nascem machistas, eles aprendem”. Alfeu Mantovani trouxe “A escola como espaço de desenvolvimento (ou de repressão)”.
E terminamos olhando para o futuro: quem já movimenta esse campo, que conexões ainda precisam acontecer e que compromissos podemos construir para a próxima década.
Essa edição também acontecia em um momento particular do trabalho do Instituto.
Poucos meses antes, havíamos participado, ao lado da Equimundo e de uma rede de parceiros, da construção do MenCare Changemaker Summit, no Rio de Janeiro, reunindo lideranças brasileiras e internacionais em torno de cuidado, paternidades, masculinidades, violência, saúde e educação.
Ao mesmo tempo, o Projeto Meninos vem avançando no esforço de transformar anos de pesquisa e escuta sobre meninos, adolescência e masculinidades em ferramentas capazes de chegar a escolas, educadores, famílias e políticas públicas. O esforço é para que aquilo que aprendemos ouvindo meninos não termine apenas em um documentário ou numa pesquisa.
Também apoiamos neste ano a chegada ao Brasil de O Trabalho dos Homens, de Paul Kivel, traduzido por Felipe Requião, da Horagá Diversidade, e lançado com apoio do Movimento Mulher 360 e do Instituto Maria da Penha.
Tive a oportunidade de participar diretamente, ao lado do Requião, da construção do ecossistema em torno do livro, pensando não apenas seu lançamento, mas sua narrativa, comunicação e posicionamento, além dos caminhos para que ideias como a Caixa dos Homens possam continuar circulando em grupos, escolas, empresas, projetos com meninos e espaços de formação.
Pesquisa virando ferramenta. Livro virando conversa. Documentário buscando virar metodologia. Encontros internacionais gerando articulações locais.
Uma coisa começa a encontrar a outra.
Talvez por isso o auditório da Pinacoteca me parecesse maior do que aquele domingo.
A décima edição do PAI colocava muitas dessas linhas dentro da mesma sala: pesquisa e vida concreta, paternidade e política pública, infância e adolescência, escola e família, arte e dados, gente que trabalha há décadas nesse campo e pessoas que estavam chegando à conversa pela primeira vez.
Era uma celebração de uma trajetória, mas também a fotografia de um campo vivo.
E havia outra camada naquela edição.
Nós a colocamos de pé em menos de trinta dias.
Não havia uma estrutura gigantesca de produção. Havia uma equipe pequena, parceiros, fornecedores e muitas pessoas assumindo mais de uma função. Durante algumas semanas, boa parte da minha vida esteve organizada em torno do PAI.
Por isso, uma das imagens que mais ficou comigo aconteceu antes mesmo de o evento começar.
Era sábado, quase onze horas da noite, e eu ainda estava na Pinacoteca acompanhando a montagem. Maria Clara e Francisco estavam comigo.
Em algum momento, nós três nos sentamos para comer McDonald’s dentro da Pinacoteca, já fechada para o público. Ao redor, nossa equipe, os profissionais de segurança e os fornecedores terminavam de preparar o espaço que algumas horas depois receberia todo mundo.
Depois caminhamos pelo museu vazio.
Para Maria e Francisco, parecia Uma Noite no Museu.
E parecia mesmo.
Meu aniversário tinha sido na sexta-feira. Eu completava mais um ano de vida enquanto ajudava a colocar de pé a celebração dos dez anos do PAI.
Sete anos antes, aquelas duas crianças estavam no centro de muitas das perguntas que eu levava ao palco.
Agora caminhavam comigo pela Pinacoteca enquanto eu ajudava a montar sua décima edição.
No domingo de manhã, as portas abriram. As pessoas chegaram, o café foi servido e o auditório foi sendo ocupado.
Aquilo que durante semanas existira em planilhas, mensagens, reuniões, contratos, listas e na minha cabeça passou a existir de verdade.
Eu quase não consegui acompanhar o que acontecia dentro do auditório. Passei o dia entre bastidores, equipe, fornecedores, entradas, horários e imprevistos.
De certa forma, aquela era minha posição naquele PAI.
Enquanto outras pessoas ocupavam o palco e a plateia, eu cuidava para que aquilo pudesse acontecer.
No final do dia, conseguimos parar.
No Pacto pelo Futuro — Quem movimenta o campo e o que sonhamos para a próxima década?, Guilherme Valadares e Vivi Santiago ajudaram a lembrar que esse campo não é construído por uma organização, um projeto ou uma única voz. Ele existe porque muita gente, em lugares diferentes, vem criando linguagem, políticas, práticas, redes e possibilidades.
Depois veio Wellington Sabino.
Wellington encerrou o evento com poesia e, em determinado momento, falou para a própria filha.
Maria Clara estava na plateia.
Enquanto ele falava, olhei para ela.
Ela percebeu.
Deu risada.
Eu ri também.
Por alguns segundos, ficamos nos olhando no meio daquele auditório.
Foi uma coisa pequena, provavelmente imperceptível para quem estava ao redor. Mas ali estavam, ao mesmo tempo, muitas das linhas que atravessavam aquele fim de semana.
Um poeta falava para a filha.
Minha filha estava diante de mim.
Na noite anterior, ela e Francisco tinham caminhado comigo pelo mesmo museu vazio.
E naquele instante não havia muito mais o que explicar.
Em 2019, cheguei ao PAI procurando referências. O encontro não me deu respostas prontas, mas me apresentou pessoas, perguntas e possibilidades. Fez com que eu me sentisse menos sozinho quando isso importava muito.
Sete anos depois, eu estava dentro do Instituto, ajudando a criar as condições para que outras experiências, pesquisas, perguntas, ideias e pessoas pudessem se encontrar.
E meus filhos estavam ali.
Um evento não responde sozinho às perguntas que atravessaram aquele domingo.
Mas alguma coisa pode acontecer quando um pai percebe que uma dificuldade não existe apenas dentro da casa dele; quando um homem encontra linguagem para algo que nunca conseguiu nomear; quando uma pesquisa encontra quem atua no território; quando uma organização encontra outra; quando um menino descobre que existem outras maneiras possíveis de ser homem.
Em 2019, eu entrei no PAI procurando outros homens.
Em 2026, tive o privilégio e a responsabilidade de ajudar a construir um lugar onde outros homens possam se encontrar.