Quem ensina os homens a cuidar?
Na manhã seguinte ao enterro da Mi, levantei antes de o sol nascer e fui até a cozinha. Abri o armário para pegar a mamadeira do Francisco, mas fiquei parado olhando para dentro.
O que eles vão almoçar?
Será que têm roupas limpas?
Será que preciso comprar roupas novas?
Em poucos segundos, fui atropelado por perguntas que até então não faziam parte da minha rotina. Naquela manhã, eu me vi responsável por tudo: pelas crianças, pela comida, pelas roupas, pela casa, pela continuidade dos dias.
Eu queria cuidar.
Mas querer não significava saber como. Também não significava me sentir capaz.
Eu quase não conhecia homens vivendo aquela realidade. Homens cuidando sozinhos dos filhos, organizando a casa, atravessando o luto e tentando entender como manter uma família funcionando. Precisava me reconhecer em outros homens. Precisava ver que aquilo era possível e que existia um caminho, mesmo que ninguém pudesse me dizer exatamente como percorrê-lo.
Mas encontrei silêncio.
Recentemente, um estudo publicado na revista Psychology of Men & Masculinities analisou grupos comunitários de pais e identificou um processo que os pesquisadores chamaram de observe and absorb: observar e absorver. Os homens aprendiam práticas de cuidado não apenas por meio de orientações diretas, mas também pela convivência com outros homens. Eles observavam comportamentos, reconheciam possibilidades e incorporavam pequenas mudanças à própria maneira de cuidar.
Se os homens também aprendem a cuidar vendo outros homens cuidando, o que acontece quando esse cuidado permanece raro, privado ou pouco visível?
Pesquisas como o State of the World’s Fathers, da Equimundo, mostram que muitos pais desejam compartilhar o cuidado de forma mais equilibrada e já participam mais do que as gerações anteriores. Mas o desejo e as condições materiais não explicam tudo. Para cuidar, também é preciso construir repertório — e parte desse repertório nasce da possibilidade de ver outros homens cuidando.
Quando fiquei viúvo, não precisei apenas aprender a preparar comida, acompanhar a escola, lavar roupa, medir febre ou fazer o coque do balé. Precisei me reconhecer em outra possibilidade de ser pai e de ser homem.
Até então, eu conhecia muitos homens competentes em diferentes áreas da vida. Bons profissionais, provedores e líderes. Mas quase não conhecia homens cuja identidade estivesse profundamente ligada ao cuidado cotidiano dos filhos.
Essa ausência não era apenas minha. Era cultural.
Talvez seja por isso que os grupos de homens tenham se tornado tão importantes para mim. Dois anos depois da morte da Mi, encontrei o primeiro espaço de conversa entre homens. Ali, não recebi um manual sobre como viver. Encontrei homens questionando o que haviam aprendido, falando sobre suas dificuldades, reconhecendo limites e tentando construir outras formas de se relacionar.
O grupo não oferecia apenas acolhimento. Ele ampliava o repertório do que era possível.
É muito diferente ouvir que um homem pode cuidar e conhecer homens tentando viver dessa forma.
Na convivência com eles, fui percebendo que não precisava reproduzir apenas os modelos de masculinidade que conhecia. Havia homens aprendendo a escutar, a pedir ajuda, a reconhecer os próprios limites e a assumir responsabilidades que durante muito tempo foram consideradas femininas. Nenhum deles tinha todas as respostas. Ainda assim, vê-los tentando também me ajudava a tentar.
Hoje, meu filho cresce em uma realidade diferente da minha. Ele me vê preparando a comida, organizando a casa, lavando roupa, acompanhando a escola e cuidando das pequenas coisas que mantêm uma família de pé.
Ele também participa. Arruma, ajuda, aprende.
Não sei como ele será quando adulto. Mas sei que ele cresce vendo algo que eu quase não vi.
Se o cuidado também é aprendido pela observação, cada homem que cuida pode se tornar uma referência, mesmo sem perceber. Não apenas para os próprios filhos, mas para outros homens, amigos, colegas, familiares e crianças que acompanham aquela vida.
O que encontrei naquele grupo, porém, não deveria depender do acaso de cada homem. A possibilidade de conviver com homens que cuidam também precisa ser produzida pelas instituições.
É por isso que a transformação não pode depender apenas de decisões individuais. Ela precisa ser acelerada por estruturas que garantam tempo, direitos e condições materiais, mas que também tornem o cuidado masculino mais comum e visível.
A licença-paternidade, as empresas que apoiam de verdade a participação dos pais, as escolas, os grupos reflexivos, as políticas públicas e as campanhas de comunicação não servem apenas para dizer que os homens devem cuidar. Elas criam condições para que os homens cuidem — e para que sejam vistos cuidando.
A licença-paternidade, por exemplo, não é apenas uma política para pais. Ela também pode ser uma política para meninos.
Cada menino que cresce vendo um homem cuidar amplia a ideia do que um homem pode ser. Cada menina que cresce vendo esse mesmo homem aprende que o cuidado não precisa ser uma responsabilidade exclusivamente feminina.
O impacto dessas políticas, portanto, não está apenas nos dias de licença concedidos ou nas tarefas divididas dentro de casa. Está também nas referências que elas ajudam a construir.
O cuidado precisa de tempo, direitos e condições materiais. Mas também precisa de imagens que permitam aos homens se reconhecer nessa possibilidade.
Talvez a pergunta mais importante não seja apenas como convencer os homens a cuidar.
Mas como criar uma sociedade em que nenhum homem precise descobrir sozinho que esse também é um jeito possível de ser homem.